domingo, 17 de janeiro de 2016

Aparição princesina

Publicado no Diário dos Campos em 24 de janeiro de 2016         

          Genoíno era um pacato operador de retroescavadeira que trabalhava na preparação das fundações dos grandes edifícios da cidade de Ponta Grossa (a Princesa dos Campos). Abria grandes buracos, estava acostumado a encontrar neles aquela rocha sedimentar lamosa e escura que cheirava enxofre.

            Um dia, durante uma das escavações, apareceu um homem com um martelo de pedreiro dizendo-se geólogo professor da universidade. O tal homem escarafunchou e martelou as pedras escavadas. Parecia um tanto abestalhado, olhava com uma lente e até cheirava os torrões arrancados do barranco. Depois mostrou a Genoíno algo que ele nunca notara antes: naquela rocha escura e malcheirosa apareciam muitas marcas que realmente lembravam conchas e outros bichos das praias, como as estrelas do mar. O dito professor falou que eram fósseis de animais marinhos do Devoniano, com mais de quatrocentos milhões de anos de idade!

      Na sua simplicidade, lá no seu íntimo, o operador de escavadeira desdenhou daquela presunçosa conversa de professor. Um mar com praias por aquelas terras tão altas? Quatrocentos milhões de anos atrás? Nem o dilúvio tinha ainda acontecido! E este planeta em que vivemos já existia lá há tanto tempo? É muito tempo! E quem pode querer saber o que acontecia por aqui, ou em qualquer canto deste mundo, tanto tempo lá atrás?

            Alguns dias depois, Genoíno acordou aos berros, suando em bicas, no meio da noite. A esposa e os filhos assustaram-se, o homem estava sentado na cama, os olhos esbugalhados, meio apatetado. Não reagia aos chacoalhos para tentar tirá-lo daquele transe.

       Aos poucos, ele foi se recuperando. Mas o medo ainda arregalava seus olhos, que iam ganhando vida própria, dando a entender que o pavor que o dominara recuava, mas não o abandonara de todo. Por fim conseguiu falar:

           ¾  Bobagem homem. Foi um pesadelo. Isso não existe...

      ¾  Não era bobagem! Eles queriam dizer-me algo. Para respeitar o cemitério...

          ¾  Cemitério? Vocês andaram escavando algum cemitério nas construções dos prédios?

           ¾  Não, não! Ou melhor, que eu saiba não... Em todo caso, amanhã vou ver isso.

            Voltaram a tentar dormir, debatendo-se com a inquietação e insônia.

            No dia seguinte, Genoíno procurou junto ao mestre de obras e engenheiros saber sobre o local que andavam escavando. Algum dia tinha sido um cemitério? Riram-se dele, todos foram peremptórios: por ali nunca houvera um cemitério, nem mesmo nos tempos dos caingangues nem da colônia, pois o terreno não era apropriado para o descanso dos mortos. Nenhum ser com algum juízo enterraria seus mortos em ladeiras como aquelas.

            Embora convencido da verdade do que ouvira, Genoíno não se sentia tranquilizado. Algo ainda fazia parecer-lhe que o pesadelo fora um aviso, realista demais.

            Na noite seguinte, outra vez acordou aos berros e suando. O mesmo pesadelo. Ao mal conseguir falar, saíram-lhe embargadas as palavras:


          ¾  O cemitério tem quatrocentos milhões de anos! Toda a cidade está construída sobre ele! Era onde iam morrer os seres mais evoluídos que existiam na Terra naquela época...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O descobrimento do Brasil (ou "Votos para 2016")

          Não o descobrimento do Brasil de desventuras, que todos pasmamos hoje. Mas o descobrimento do novo Brasil. Novo ao contrário deste velho Brasil de vícios e improbidades, que não era assim, quando foi descoberto há cinco séculos pelos que aqui aportaram vindos de fora. O novo Brasil vai ser descoberto pelos de dentro. Aqueles de dentro a quem ainda resta a esperança, resta a lembrança do significado da palavra nação, resta o espírito de fraternidade que alimenta os homens e mulheres que já souberam o que é a fome, a vergonha, o medo, o cativeiro, o desterro, o vazio de perdas irreparáveis.

          A descoberta do novo Brasil vai soar como um tremor das almas, a lhes alumiar o desejo de liberdade, dignidade e concórdia. Esta alma do novo Brasil vai ser urdida com o fermento de todos os incontáveis ingredientes deste nosso país continente. A começar pela inocente e despojada honradez dos silvícolas que os aventureiros portugueses por aqui encontraram. À qual foram se juntando as razões das hordas de degredados, de refugiados e de expatriados que por aqui aportaram e ainda chegam. Cada qual trazendo seu quinhão de sabença dos ardis do mundo e de sonho de um outro mundo, melhor que aquele deixado para trás.

          Não faltam dádivas da terra e dos céus para animar as gentes a descobrir esse dormente e novo Brasil. Não faltam a água e o alimento fartos para a saúde do corpo e da mente. Não faltam os deslumbres e assombros da exuberante natureza para a saúde do espírito. Não faltam os materiais e a energia para alçar a engenhosidade humana à quimera da descoberta não só do novo Brasil, mas também da nova Terra, e quiçá de novos mundos.

          E com tantas bênçãos e acertos, e depois de muitos desatinados delírios, o novo vai vir desassoberbado. Impregnado da paz, da tolerância, da cooperação, da confiança, aprendidas nos descaminhos. A nação inteira vai ser nova. O povo vai ser novo, pela novidade do alumbramento e do devir. Como que por milagre, tudo que era pequenez da saga humana vai dar lugar a grandeza, e as gentes vão se dar conta da largueza e da alegria dos sentimentos que acolhem e aproximam. Assim como é larga a generosidade desta Terra que tudo nos dá.

          Afinal, a compreensão das palavras iluminadas daquele primeiro descobridor é que vai fazer revelar o adiado e novo Brasil.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Diário da crise

          “Diário da crise” é o nome de um programa que todo dia vai ao ar em edição nacional na principal rádio de notícias do País, esta pertencente ao oligárquico cartel que controla ferozmente as comunicações em nossa Pátria. Valeria muito todo cidadão procurar conscientizar-se do poder da grande mídia em controlar os destinos do mundo. Há um sem número de estudos a respeito, em livros, teses acadêmicas, filmes, peças teatrais... Para começar talvez se possa pensar no livro Controle da mídia – os espetaculares feitos da propaganda de Noam Chomsky, que entre outros alertas, esclarece as eficientes estratégias utilizadas pela grande mídia para manipular a opinião pública.

          Aliás, estratégias que não são novas. Já mostraram sua impressionante eficácia ao conduzir a nação alemã à loucura do nazismo e ao conduzir vários países do mundo a genocídios fratricidas, como foi o caso de Ruanda na África na década de 1990. Que desvirtuamento! O poder da grande mídia poderia estar direcionado para o engrandecimento da humanidade, para o fortalecimento da democracia, da identidade, da liberdade, da cultura e da soberania dos povos. Mas infelizmente não é isso o que se observa ao longo da história. A grande mídia tem sido na verdade uma ferramenta dos poderosos para manipular a opinião do povo, transformando-o em massa de manobra que reage irracionalmente no interesse dos controladores da mídia, e não no interesse do povo.

          Vejamos o caso do Brasil, onde atualmente acontece o “Diário da crise”. E não é só este programa, todo o noticiário político e econômico é editado de forma a ressaltar os fracassos e esconder os sucessos do governo federal atual. Ao mesmo tempo em que se ressaltam os sucessos e escondem os fracassos dos governos dos apaniguados da mídia. A informação é sempre manipulada de modo a imputar os fracassos a uma das tendências ideológicas do País. E os sucessos à outra tendência, aquela dos protegidos da mídia.

          Poderíamos simplificar e dizer que falamos das tendências cujas siglas são PT e PSDB, que polarizam hoje o embate político/ideológico, já que outras siglas, como o PMDB, são camaleoas, não têm cor definida e assumem a defesa de interesses de conveniência. Mas esta simplificação não retrataria bem a realidade. As tendências em confronto têm natureza milenar, pois de um lado encontram-se as massas que vivem da força de seu trabalho e aspiram emancipação, justiça social e liberdade. E de outro agrupam-se aqueles que acreditam na força do poder da riqueza e da exploração do trabalho alheio. Ainda que para isso seja necessário impor condições injustas e até desumanas.

          Mesmo que esta polarização seja uma forçada dicotomia, como regra geral é legítima.  Seria mais realista denominar a luta de classes de guerra de classes, tantos foram suas vítimas. E, como em toda guerra, a primeira a sucumbir é a verdade, incansavelmente vilipendiada.

          A devastadora manipulação atual imputa aos trabalhadores e aos governos por eles eleitos todo tipo de fracasso: incompetência para governar, recessão econômica, caos político e toda forma de corrupção. O cidadão menos atento às artimanhas e manipulações midiáticas passa a acreditar na impotência do simples trabalhador na tarefa de transformar o mundo, e até de cuidar de si próprio.

          Neste afã de manipulação e convencimento perpetrado pela grande mídia, colocam-se em risco as ainda frágeis conquistas de nossa jovem democracia: o fortalecimento das instituições democráticas, o crescimento da grande empresa nacional de petróleo, a ascensão do País ao grau de investimento, a liquidação da colossal dívida externa deixada pelos governos anteriores, a melhoria na distribuição de renda, a diminuição do desemprego e da miséria, a melhoria da qualidade de vida da população mais pobre...

          Os controladores da mídia não têm escrúpulos em apoiar no parlamento um velho e astuto lobo notório pelas muitas trapaças e truculências em sua longa vida política dedicada ao interesse próprio. A ele está dada a incumbência de sabotar a presidenta que chegou pelo voto ao governo, e que tem na sua história de vida a luta pela liberdade e pela justiça, e cujo governo tem como metas a distribuição de renda, a justiça social e a soberania do País. Na faina de desmoralizá-la, acusam-na da praga maior do Brasil, a histórica corrupção. Assim fazendo escondem que esta praga que devora as riquezas e a moral do País está historicamente entranhada na identidade nacional, e que para ser vencida necessita de firmeza e honestidade. A começar pela honestidade da informação.

          Além do grande ultraje de ver a idealista presidenta colocada no mesmo nível do velho e astuto parlamentar, outras afrontas têm sido imputadas ao País. A voracidade das acusações faz o volúvel mercado hesitar, a economia regredir, o País perde o grau de investimento, e diz-se que é a incompetência do governo. Será? Ou serão os manipuladores da mídia, com o caos político que provocam, e os empresários, que se recusam a investir e a aumentar a produção, pois deliberadamente querem sabotar o governo, e assim fazendo na verdade sabotam todo o País?

          E a empresa estatal de petróleo, que já foi um exemplo para o mundo? Revela-se agora com grande estardalhaço que ela é envolvida por uma trama de corrupção, e o diário da crise apressa-se em atribuir esta corrupção ao governo atual. Mas esconde que tal trama corrupta que amarra a grande empresa já era conhecida lá atrás, em governos de outras cores. E também esconde que, infelizmente, em todo o planeta o inescrupuloso poder da riqueza do petróleo derruba e elege governos, às vezes através de fraudes colossais, e move guerras hipocritamente atribuídas à libertação de tiranias detentoras de armas de destruição em massa.


          Quantos ultrajes têm sido imputados ao País, e quantos ultrajes o País tem se deixado imputar! Ou será que na verdade secretamente muitos brasileiros nutrem o desejo de serem aceitos no clube dos manipuladores da mídia, e virem assim a se tornar um deles? Se assim for, então antes temos de aprender o valor da cooperação, comparado ao da competição.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O maestro da Av. Carlos Cavalcanti

          Não sei bem se lhe cabe o título de maestro, pois o que ele rege é uma desproporcional caixa de som tonitruante que ele carrega atada ao bagageiro de sua surrada bicicleta. Também não sei se está certo dizer que ele seja da Av. Carlos Cavalcanti, porque embora nossos caminhos sempre se cruzem por lá, é bem provável que ele percorra com sua insólita sonoridade outros lugares da cidade, e é bem possível que o leitor o conheça de outras plagas.

          E, a bem da verdade, também não sei se lhe cabe o artigo definido ‘o’. Talvez seja mais acertado dizer que se trata de mais um dos vários maestros daquela avenida, pois que já encontrei muitos outros. Mas estes outros são figuras menos extravagantes, regem seus ruídos, não sei bem se poderia chamá-los de músicas, em veículos equipados com potentes alto-falantes no volume máximo, as janelas escancaradas, e aquele tum-tum-tum monocórdio que faz vibrar os quarteirões próximos. Um incivilizado extravasamento de um ainda animalesco instinto egocêntrico?

          Mas voltemos ao nosso singular ciclista da Carlos Cavalcanti. Trata-se de um jovem já perto da meia idade, magro mas de estatura acima da mediana, trajado com roupas básicas de quem ganha a vida com o suor do trabalho e vive de jeito muito simples. Encontro-o sempre vindo no sentido do centro da cidade, ele mora para os lados de Uvaranas. E sempre antes das oito horas da manhã, tudo indica que ele seja um modesto trabalhador a caminho do trabalho.

          O ruído a título de música produzido pela avantajada caixa de som de sua bicicleta não pode ser considerado agradável aos ouvidos. Duvido que possa ser considerado agradável até mesmo pelo nosso excêntrico maestro pedaleiro. Então o que o faria exercer essa bizarra regência, espalhando ruidosa sonoridade pelo caminho? Estaria a anunciar-se ao mundo, e assim procurando encontrar alguma atenção, algum reconhecimento, que a vida lhe nega? Seria seu suposto exibicionismo uma tímida compensação da invisibilidade que imputamos às pessoas simples?

          E lembremo-nos que, aos humildes trabalhadores que não têm outra alternativa que não seja usar suas velhas bicicletas no percurso para o trabalho, fazemo-los tão invisíveis numa via nervosa como o é a Carlos Cavalcanti que frequentemente eles são atropelados. Seria esta a razão de ser do nosso maestro? Estaria ele prudentemente se fazendo anunciar por uma questão de segurança, de sobrevivência? Ou haveria ainda algum tipo de impensada desforra, tipo “vocês não me veem, mas são obrigados a me escutar”? Ou seriam ainda meus preconceituosos ouvidos que não sabem apreciar o som que nosso maestro generosamente espalha com a intenção de saudar a azáfama do início de manhã dos ouvintes?

          É possível que nem mesmo o nosso regente saiba ao certo qual a razão da excentricidade que o diferencia e o torna único. E os outros maestros do trânsito, aqueles que às vezes nos acordam nas horas do nosso sono da madrugada, passam com seus vibrantes tum-tum-tum reverberando todo o quarteirão, quais motivos os moveriam? E, se formos bem honestos, todos nós temos lá nossas excêntricas idiossincrasias, que nos fazem únicos. De que maneira as praticamos no dia a dia?


          Nesta busca pela identidade, torço para que nos encontremos nos seres ímpares que somos, sem que para tanto tenhamos que impor bizarrias aos tantos outros que compartilham conosco o afã do aglomerado urbano. Já pensaram, e se cada um resolvesse andar por aí com uma tremenda caixa de som reverberando os cérebros?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Impeachment ou golpe?

          Que momento surrealista vive nosso país! Assistimos de um lado os congressistas divididos, se apóiam ou não o pedido de cassação do presidente da câmara federal, alvo de várias denúncias de corrupção e improbidade. Este, terceiro homem na sucessão presidencial, em represália exerce o poder de desencadear processo de impeachment contra a presidenta, também por supostas denúncias de corrupção. Os parlamentares de oposição à presidenta querem que o processo de impeachment seja moroso, para dar tempo de mobilizar as massas. Julgam necessário percurso ao contrário daquele que cassou Collor, quando o impeachment nasceu nas ruas e contagiou o congresso. Agora, seria necessário tempo para ele sair do congresso e contagiar as massas nas ruas. E nesse meio tempo, alguns empresários e dignidades do país apelam por um processo rápido, pois o prolongamento da crise política seria um desastre para a já combalida economia do país.

          Vamos refletir um pouco sobre este quadro. Primeiro, perguntemo-nos qual seria o propósito destes dois protagonistas do momento, a presidenta do país e o presidente da câmara. Qual a história de vida dos dois, quais as acusações que pesam sobre cada um deles, em nome de quais ideais dedicam suas vidas? Aqui uma dificuldade, discernir entre fatos e factoides, estes últimos quase sempre criados para esconder os primeiros. Entre os factoides, aquele que circulou pouco antes da eleição da presidenta, de que ela seria assassina do tempo de militância contra o regime militar no Brasil. Só depois os fatos apareceram, ela não foi assassina, mas foi um dos muitos jovens idealistas, corajosos e inconformados com um regime ditatorial, este sim criminoso. Sobre as mentiras que movem as massas, é bom lembrar também o estouro do cárcere de Abílio Diniz na véspera da eleição de Collor. Os sequestradores, mostrados em cadeia de TV, vestiam camisas do PT. Só muito depois se revelou que as camisas tinham sido vestidas à força pelos agentes. Mas tudo isto esquecemos, uma característica nossa é a débil memória, assim como é débil o nosso discernimento.

          Qual é o propósito, a razão de vida dos nossos dois protagonistas do momento? O presidente da câmara, sua história parece apontar que seja alguém empenhado em ter poder pessoal, eivado de atos de truculência, e altos valores em contas bancárias na Suíça não declaradas. E a presidenta do país? Os pecados que lhe imputam são de cegueira com atos de corrupção na Petrobras e no governo e uma obstinada defesa e identidade com o PT, esse partido que a grande mídia oligárquica está demonizando no Brasil, como pelo mundo se demoniza o islamismo. Ora, brasileiros, vamos ter um mínimo de dignidade, e reconhecer que sistemas corruptos são a alma do país. Em tudo, e há muito tempo, as propinas, os subornos, os superfaturamentos, as gorjetas e as caixas-dois estão presentes. Ou não é assim? E esta é uma sangria que drena as riquezas e a moral do país, mas precisamos enfrentá-la com firmeza, e não com hipocrisia. Ou vamos acreditar que os responsáveis são os bodes expiatórios que a mídia tenta nos imputar? A mesma mídia que transmitiu ao vivo e em cadeia nacional os sequestradores do Abílio Diniz com as camisetas do PT?

          E qual o propósito da presidenta? Ora, pois a meu ver, não existe propósito mais nobre num ser humano que ter a coragem de dedicar sua vida em prol de causas em favor da liberdade, como na época da ditadura militar, colocando em risco a própria vida. E não existe propósito mais nobre que dedicar-se à busca da justiça social e da soberania, que é a busca de um partido de trabalhadores, surgido de lutas sindicais. E para tanto ter que sofrer o ataque e o desgaste de todas as forças reacionárias empenhadas em manter nossa sociedade dividida entre privilegiados e explorados.

          Que tremenda diferença entre nossos dois grandes protagonistas do momento! E o papel dos políticos de oposição, das massas e da grande mídia oligárquica? A oposição tem declarado que quer levar o impeachment do congresso (onde ele não vingaria sob o abrigo da lei) para as ruas. A mídia certamente empenhar-se-á em convencer as massas de que a presidenta é culpada de estar cercada por improbidades e de pertencer ao partido dos trabalhadores. E as massas? Terão as massas brasileiras alcançado algum grau de discernimento, terão superado sua débil memória, terão alcançado alguma confiança na capacidade de agir em prol da transformação de nossa perversa sociedade noutra mais justa, ética e humanizada?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Estória da criação

Fala realizada no I Seminário de Pesquisas do Parque Nacional dos Campos Gerais e da Reserva Biológica das Araucárias, Fundação Boticário e ICMBio, Ponta Grossa, 19/11/2015

          Conta-se que quando da criação do mundo, o Criador, secundado por seu fiel ajudante principal (os Católicos diriam que era São Pedro), estava finalizando a distribuição das riquezas e privilégios sobre o planeta Terra. O ajudante perguntava:

          ¾  Mestre, onde devo colocar as maiores acumulações de minérios estratégicos e minérios essenciais para o futuro desenvolvimento tecnológico da Humanidade?

          O Criador refletiu um pouco, coçou o queixo, a cabeça, e disse:

          ¾  Coloque lá naquele grande país da América do Sul, que vai se chamar Brasil.

          ¾  E onde coloco os maiores mananciais de água doce do planeta?

          Depois de uma hesitação mais rápida, o Criador respondeu:

          ¾  No Brasil!

          E Pedro (vamos aqui assumir o ponto de vista católico, que fosse Pedro o ajudante) ia anotando em sua prancheta luminosa.

          ¾  E as maiores florestas do planeta?

          Agora já quase sem hesitação, o Criador responde firme e prontamente:

          ¾  No Brasil!

          ¾  E as maiores extensões de solos férteis adequados para o plantio e a criação?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E a mais rica biodiversidade do planeta?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E as plantas nativas mais generosas, dóceis e resistentes, capazes de produzir grãos e raízes para o fabrico de farinhas, pães, bolos, amidos, polvilhos e tudo que seja necessário para alimentar os humanos e suas criações?

          ¾  Põe lá no Brasil!

          ¾  E árvores frutíferas nativas invulgares e deliciosas, que dão geléias, compotas, doces, bebidas inigualáveis?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E a maior incidência da luz do sol, que um dia poderá ser transformada em fonte de energia limpa e renovável?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E milhares de quilômetros de praias maravilhosas, que além de satisfazer a necessidade de deleite e fantasia das pessoas, é uma fonte inesgotável de recursos pesqueiros?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E grandes campos petrolíferos estratégicos, que só poderão vir a ser explorados quando a energia começar a escassear no mundo?

          ¾  No Brasil!

          ¾  E onde deixaremos grandes extensões de terra livres de terremotos, tsunamis, vulcões, furacões, desertos e pragas naturais?

          ¾  No Brasil!

          A esta altura Pedro já se inquietava de tantas vezes que a palavra Brasil aparecia em sua prancheta luminosa. Mas ainda continuou as perguntas:

          ¾  E onde colocaremos paisagens maravilhosas, além das praias, montanhas, pantanais, chapadas, escarpados, grandes rios, cachoeiras, cavernas, para o regalo e reverência do povo?

          ¾  No Brasil!

          Pedro, então, tomado de um impulso de justiça para com a humanidade, exclamou revoltado:

          ¾  Mas Mestre, não são benesses demais para uma única região, um único país do mundo?

          O Criador, com muita calma, e um brilho de astúcia no olhar, responde:

          ¾  Calma, Pedro, calma. Ainda não terminamos a criação. A Terra vai ser um planeta de aprendizado pelo erro. Você vai ver as pessoas que vamos pôr lá!

***

         Três observações sobre esta estória:

         - o que vale para o planeta Terra parece valer também para a região dos Campos Gerais;

         - escutei-a pela primeira  vez (uma versão antiga) faz uns cinquenta anos, portanto naquela época já se tinha a percepção que as pessoas, com seus erros colossais, eram capazes de compensar tantas benesses naturais do Brasil; não são as pessoas dos tempos atuais que iniciaram os nossos muitos erros;

         - dizem que esta estória é uma desforra, inventada pelos portugueses ou pelos argentinos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A vida: essa escola implacável

Publicado no Diário dos Campos em 17 de novembro de 2015.

          Com o passar dos anos, cada vez mais me convenço de que a vida é mesmo uma escola implacável, que nos cobra exemplarmente os nossos erros, e sobre eles persiste até que demos mostra de algum aprendizado. Para usar exemplos bem próximos, vamos falar do humilhante 7X1 para a seleção da Alemanha na copa de 2014, do atentado ao Charlie Hebdo na França no começo deste ano e dos bárbaros atentados dos últimos dias naquele mesmo país.

          O futebol é a paixão nacional, e um forte elemento na construção da identidade do povo brasileiro. Através dele o brasileiro mostrou ser capaz de vencer, e foi deixando para trás o complexo de vira-lata que o assolava. Foi um grande empenho de muita gente trazer para o país a copa de 2014. Uma chance de redimir-se da tragédia histórica do “maracanazo”, a derrota de 1950 para o Uruguai de Ghiggia. E então, às vésperas da copa de 2014, orquestrou-se um incompreensível coro “fora copa”. E na abertura do mais global dos eventos esportivos, o único que literalmente para o planeta, até suas guerras e acirradas disputas ideológicas, perpetrou-se o ato de supremo desrespeito, a presidenta foi vaiada e ofendida. A vida logo tratou de admoestar os rebeldes: foi imputado ao país um vergonhoso e histórico 7X1 perante a Alemanha, reforçado ainda pelo 3X0 frente à Holanda. Passamos a ser uma vergonha naquilo em que já fomos um orgulho.

          No início deste ano, o bárbaro atentado à revista Charlie Hebdo. Bárbaro e injustificável, sem dúvida, mas alegaram os seus autores que faziam justiça às ofensas publicadas pela revista aos ícones do islamismo. Será que teriam sido os ofendidos que teriam perdido a medida das retaliações justificáveis, ou teria sido a ofensora, a revista, que teria perdido a medida das ofensas? E agora os ainda mais bárbaros atentados, supostamente em retaliação às posições da França perante o Estado Islâmico e à acossada população árabe residente no país de Le Pen. Nestes dois casos, parece-nos também que a vida anda a procurar mostrar sua lógica implacável: o fanatismo de uns faz com que se tornem perseguidos e combatidos por boa parte do mundo ocidental, a incompreensão, a intolerância e a ofensa de outros fazem com que sejam alvo do ódio dos primeiros.

          Mas estes exemplos nos conduzem ao Brasil de hoje. O país ainda pode ser considerado, perante estas tragédias que vão pelo mundo, uma terra de tolerância e convivência pacífica. Talvez herança de um povo que resulta da miscigenação de raças. Mas é bom ficar alerta, pois parece que também por aqui a incompreensão e a intolerância têm sido fomentadas, até os extremos do ódio explosivo. Se não existem entre nós os ódios raciais, culturais, religiosos que existem em outras partes do mundo, parece estar sendo cultivado entre nós o ódio ideológico.


          Aqueles que estão fomentando tal ódio ideológico entre nós teriam para tanto muitas razões. Receio principalmente a que talvez seja a principal e mais escondida delas, e que não é doméstica: se o país não estiver dividido por algum tipo de ódio e intolerância interna, ameaça ascender à grande nação que tem potencial de ser. E isso assusta o arranjo mundial de poder, que não deseja novos concorrentes. Mas os fomentadores do ódio e os que se deixam por ele levar não perdem por esperar: logo a vida exercerá seu implacável poder de correção. A menos que aprendamos antes.