domingo, 26 de novembro de 2017

Homo sapiens ou homo erroris?



O livro A segunda guerra fria, do brasileiro radicado na Alemanha Luiz Alberto Moniz Bandeira (falecido no dia 10 de novembro último), nos alerta sobre o uso recente de uma estratégia milenar: iludir, dividir, para governar. Moniz Bandeira nos mostra com uma incomparável riqueza de fontes que, desde a queda da União Soviética, os candidatos a potência com total hegemonia do poder mundial (EUA) têm repetido um mesmo expediente para alastrar seu domínio sobre países estratégicos que tinham governos indesejáveis e/ou eram portadores de riquezas naturais indispensáveis para a dominação do mundo: Geórgia (2003), Ucrânia (2004) e Quirguistão (2005) na Ásia Central, a Primavera Árabe (2010-2012) que devastou os países do Norte Africano e Oriente Médio. Essas regiões são de altíssima relevância estratégica, por constituírem territórios com enormes reservas de recursos energéticos e minerais, e pela posição geopolítica.

As táticas de desestabilização de governos legítimos mas avessos à expansão estadunidense foram semelhantes: formação e financiamento de grupos de ativistas radicais e ONGs de oposição, financiamento de campanha de políticos oposicionistas, domínio da mídia e maciça campanha de desmoralização institucional e governamental, financiamento de “guerras psicológicas” operadas pela mídia visando desestabilizar governos e dividir a população dos países. Essas táticas visaram derrubar governos sem a necessidade de dispendiosas intervenções militares, como no caso do Afeganistão e do Iraque.

O livro de Moniz Bandeira foi concluído em 2013, e republicado no Brasil em 2017. Ele não chega a abordar os golpes em Honduras (2009) e no Paraguai (2012), que igualmente visaram substituir governos eleitos nacionalistas por governos mais simpáticos aos interesses estadunidenses. E muito menos aborda as transformações ocorridas no Brasil a partir de 2013.

Quais transformações ocorreram no Brasil? A partir de 2013 movimentos populares que inicialmente protestavam contra a má qualidade e alta tarifa dos transportes urbanos nas metrópoles transformaram-se em protestos contra a corrupção, o gigantismo e a inoperância do Estado e de suas empresas, principalmente a Petrobras, e de grandes empreiteiras. A mídia produzia o massacre midiático da demonização do Partido dos Trabalhadores e seus governos e governantes, da pífia economia do país, da corrupção que estaria profundamente enraizada em todo o modus operandi nacional por culpa dos governos petistas. A presidenta eleita foi afastada acusada de praticar atos administrativos utilizados por todos seus antecessores, mas os congressistas que caçaram-lhe o mandato não tiveram coragem de negar-lhe direitos políticos, pois tiveram vergonha de condenar politicamente uma estadista com uma estatura ética muito superior à deles.

E no lugar da presidenta deposta assumiu seu vice. Que logo se mostrou a pessoa certa para ocupar o papel esperado por quem patrocinou, do exterior, o golpe sem guerra no Brasil. O “ajuste” das contas públicas está sendo realizado pelo viés da limitação de investimentos em infraestrutura e serviços básicos, reforma do ensino restringindo disciplinas reflexivas e críticas, modificações na legislação trabalhista em prejuízo do trabalhador, reforma da previdência em prejuízo da aposentadoria do cidadão comum, descapitalização da Petrobras e loteamento das imensas jazidas de petróleo do pré-sal, privatização de serviços estratégicos de energia e saneamento... Mas imprescindíveis ajustes na tributação dos rentistas e dos mais ricos, nas privilegiadas aposentadorias de políticos, juristas, militares e outros, nas leis que regulamentam as eleições e os políticos... estes estão fora da pauta de discussões.

Ou seja, no Brasil não nos comportamos de forma diferente dos outros países que, desde o início deste século, têm trocado governos nacionalistas e legitimamente eleitos por governos que estão loteando as riquezas nacionais e explorando seus trabalhadores. E, pior do que lotear as riquezas, estão nos dividindo, quando conseguem transformar diferenças ideológicas em motivo de violência e agressões. Devíamos estar mais atentos a quem são nossos verdadeiros adversários, que merecem nossa indignação e nossa condenação.

E, talvez ainda pior: como o povo de um país pode valorizar conduta ética e responsável, se de seus dirigentes vem um exemplo tão carregado de desmandos?

Está na hora de deixarmos de ser Homo erroris, e tornarmo-nos Homo sapiens.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Carta de repúdio ao General Mourão

 Texto escrito em resposta ao texto "Carta pública de apoio ao General Mourão", publicado em jornal de Ponta Grossa em 07/10/2017.
Quem assina esta não é um grupo de patrimonialistas entidades patronais, mas é um simples professor. Mas tenho convicção que esta carta representa o pensamento da grande maioria dos brasileiros,
A fala do General Mourão não usa estas palavras, mas ameaça com o estado de exceção em que se suprimem os direitos, o que entre nós ocorreu entre 1964 e 1985, durante a ditadura militar. E se hoje nossa jovem democracia está criticamente estremecida pela crise entre os poderes e iniquidades neles enraizadas, o estado de exceção em que os direitos são suprimidos é muito pior. A diferença é que na ditadura as iniquidades, os crimes contra o cidadão e o bem público, são ocultas a peso de chumbo e sangue, enquanto hoje temos certa liberdade, transparência e segurança para denunciar e apurar.
E não nos iludamos que as forças armadas signifiquem acerto nos rumos de uma nação. Se não bastassem os exemplos históricos da França de Napoleão, da Alemanha de Hitler, da Rússia de Stálin, do Chile de Pinochet, do Iraque de Saddam, lembremo-nos de que durante a ditadura militar brasileira o país contraiu a maior dívida externa de sua história, só saldada na última década. Para não falar na imensa dívida educacional, da dívida moral, da dívida dos valores civilizatórios que constroem uma sociedade justa e solidária.
Estas dívidas estamos pagando até hoje, por isso nossa jovem democracia ainda sofre esta crise que estamos vivendo. Mas crises são bem-vindas, elas nos mostram que o velho está morto, já não funciona, e o novo ainda não nasceu para substituí-lo.
O velho está morto. O Brasil do coronelismo, das abismais injustiças sociais, dos privilégios das elites e de suas escandalosas artimanhas para continuarem privilegiadas, está morto. A crise dos poderes que vivemos hoje, inclusive o poder da mídia e dos empresários que elegem a maioria dos políticos, não é fruto da falência dos princípios democráticos. Mas é fruto justamente das forças que se opõem aos princípios democráticos, que sabotam e corroem a democracia, que subvertem princípios e suprimem direitos, seja de forma explícita, como nas ditaduras, seja disfarçadamente, como nas sociedades em que os velhos privilégios e injustiças são implacavelmente defendidos.
O novo Brasil há de ser construído não somente sobre o pilar da verdadeira honestidade, mas também sobre o pilar da inclusão e da justiça social, o pilar da liberdade, o pilar da soberania nacional. É hora do Brasil avançar, e não retroceder de sua jovem, imperfeita mas promissora democracia.

Intervenção militar, ditadura, nunca mais!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pai nosso...


... assim como nós perdoarmos a quem nos tem ofendido, não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal, amém!
Pai, dai-me forças para que eu possa sempre ser arauto do teu amor, testemunho dos ensinamentos evangélicos...
Cacilda, mas que é que estou colocando nas minhas orações! Bestei? Será que não seria melhor pedir, sim, primeiramente perdão dos meus pecados, mas também dinheiro, celebridade e poder, que ninguém vive sem essas benesses essenciais?
Este nosso mundo não merece alcançar a justiça e a solidariedade que os evangelhos nos ensinam! Parece mais que este é mesmo um mundo de penas, de sofrimento. Aprendemos pelo sofrimento na própria carne, e não aquele vivido por outros. O homem torturado e pregado na cruz não consegue nos ensinar lições de amor e sacrifício. Temos nós mesmos que quebrar a cara pra aprender alguma coisa.
Pai, como será que você está se sentindo ao ver-nos em tantos descaminhos e iniquidades neste nosso planeta que já dá sinais de saturação e colapso? Escarnecemos que você anda com o dedo no botão de destruição de sua obra, arrependido do mundo que criou. Será que está mesmo arrependido?
Às vezes penso que entendemos mal. Sua intenção era essa mesmo. Este é um mundo de provas, uma escola austera, e não um mundo destinado à prosperidade, à fruição, à felicidade e à iluminação. Será que a avareza, a ambição, a crueldade, a competitividade, a soberba, a injustiça nunca vão diminuir no planeta Terra? São qualidades que nos colocam à prova, convivendo com elas aprendemos, ou não! Se aprendermos, então iremos para outros planetas, criados para serem melhores. Parece que o nosso, este decantado planeta azul, nunca vai evoluir. É a escola para os alunos renitentes, que têm dificuldade de aprender.
Será que é isso mesmo? Então minhas preces pedindo por um mundo melhor, por gente melhor neste mundo, são vãs? Melhor seria eu rezar para que o mal esteja cada vez mais fortalecido, e assim nos convença com mais veemência de que o bem é preferível? E rezar para que pelo menos eu, e meus próximos mais próximos, aprendamos, para podermos ter direito a mundos melhores?
Pai, se seu filho aparecesse hoje por aqui na Terra, seu destino não seria diferente do que aconteceu já lá se vão dois milênios. Você e seu filho são uma afronta ao mercado, à livre iniciativa, ao empreendedorismo, à competência e ao dinamismo. Hoje seu filho não seria crucificado, mas talvez virasse um indigente perambulando por este mundo de modernidades. Ou seria assassinado, como já foram vários de seus seguidores que ousaram pregar a paz e o amor.
Aliás, acho que aí é que está o fulcro da questão. Você é um deus que não conseguimos compreender. Enquanto a civilização atual é filha do deus mercado, esse sim presente em nossas vidas. Ele nos diz como viver, como ser felizes, que convicções e ideologias são corretas, como votar... Aliás, ele cria e supre nossos desejos, e também supre leis e governantes que primam por atender esses nossos construídos desejos. O deus mercado é muito eficiente. E você, pai, parece-nos muito ausente...
Bem, pai, isto que era pra ser uma oração, virou uma lamentação. Concordo que, olhando bem, o mundo que nos foi concedido, a Terra com todas suas benesses, parece o paraíso. Tão maravilhoso que concedeu-nos o milagre da vida. Mas por que motivo nós humanos fazemos de nossa passagem por aqui um inferno? Exagero meu? Mas guerras, miséria, injustiças, desigualdades, mesquinhez, desonestidade, crueldade e desumanidade são marcas deste nosso mundo, não são?
Só posso acreditar que esse era mesmo seu plano. Este nosso mundo é uma escola. Implacável. Quem passar de ano, vai pra outros mundos melhores. Este, nossa Terra, é pra ser assim mesmo. Um duro campo de provas. Não vai evoluir.

Será?

sábado, 5 de agosto de 2017

Quanto é suficiente? – o conceito de vida boa

Quanto é suficiente? – o amor pelo dinheiro e a defesa da vida boa é o título de um livro dos irmãos britânicos Robert Skidelsky (economista) e Edward Skidelsky (filósofo) publicado no Brasil em 2017. É leitura muito recomendável para quem tem intenção de manter algum discernimento e lucidez neste nosso conturbado mundo atual, em que o amor pelo dinheiro tem guiado a humanidade.
O livro começa por diagnosticar como anda a economia no mundo, comparando dados de renda per capita, distribuição de renda, qualidade de vida, satisfação com a vida e felicidade. Nesta primeira parte, o livro mostra dados que levam a concluir que a renda per capita no mundo todo é crescente, a renda encontra-se cada vez mais concentrada, os índices de qualidade de vida mostram melhoras, mas a satisfação e a felicidade pioram. É mencionada a insaciabilidade dos desejos humanos, que junto com a necessidade de ostentação e a competitividade levam ao equívoco de considerar que o possuir é a meta fundamental da vida.
Discute também a inescapável redução da necessidade de mão de obra, substituída pela tecnologia, nos processos produtivos atuais. E a importância de planejar a redução da carga horária de trabalho visando evitar o desemprego e o ócio nocivo.
O livro define “vida boa” como aquela que não é dedicada somente ao trabalho e ao consumo, mas aquela que é vivida com satisfação, e que desejamos viver. Ela nos propicia experiências estéticas, intelectuais, morais e éticas. Vida boa identifica-se com bem estar, no sentido amplo do ser: orgânico, emocional, mental, moral, espiritual.
Em seguida o livro trata dos chamados “bens básicos” para a vida boa: saúde (no sentido amplo da palavra), segurança (no trabalho, na integridade pessoal, na liberdade de pensamento, de credo, de deslocamento...), respeito (de etnia, de cultura, de origem, de ideologia, de classe social...), personalidade (que vem com a educação, e permite que cada um tenha plenas condições de avaliar com sabedoria e tomar partido nos muitos impasses com que a vida nos confronta), harmonia com a natureza (fala-se em “ecologia profunda”, aquela em que a compreensão utilitária da ecologia – o natural é para garantir-nos a vida presente e futura – evolui para a ecologia profunda – todo o planeta, toda a vida, tem um valor intrínseco que ultrapassa os interesses humanos, está no mesmo nível de valor da vida humana), amizade (incluindo-se aí os laços de família, mas indo muito além, para todas as relações que englobam intensidade e afetuosidade) e lazer (aquelas atividades que nos trazem relaxamento, repouso e crescimento que nos permitem refletir e aperfeiçoar nossa percepção do mundo e de nós mesmos, melhorando nossa auto-estima e nossa afetuosidade).
E o livro termina apontando saídas, pessoais e sociais, para a vida boa: normas gerais que inibam a insaciabilidade dos desejos humanos (acumulação e consumo exagerados); gestão responsável da substituição do trabalho pela tecnologia de modo a propiciar o lazer saudável; distribuição equitativa da renda; sistema educacional voltado para a formação de cidadãos conscientes e comprometidos com a satisfação humana, e não para a satisfação do mercado; produção voltada para necessidades locais, e não para o mercado mundial; sistema tributário incidente sobre o consumo e não sobre renda; tributação diferenciada de ganhos rentistas, altos salários, heranças e fortunas; controle da publicidade, de forma que o consumo atenda mais a reais necessidades e não a necessidades criadas pela propaganda.
A leitura do livro inevitavelmente nos faz refletir sobre o momento que passamos no Brasil: por aqui, a concentração de renda só faz aumentar, a tributação incide mais sobre o trabalhador pobre do que sobre o rico especulador, a educação forma para o mercado de trabalho, não para a vida cidadã. 
     E, principalmente, nos faz compreender que reformas necessárias para ajustar contas públicas devem objetivar prioritariamente o sistema de tributação, e não as leis trabalhistas e a aposentadoria.
Estamos muito longe do que o livro preconiza como caminhos para a vida boa. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Juízo final

Publicado no blog de Carta Capital em 16/07/2017.

Risonho Sensalva de repente viu-se diante de um portal grandioso. Não havia nenhuma identificação, mas ele sabia: era a porta do fim da vida.
Ainda assustado, sem saber o que estava acontecendo, foi se aproximando. Esperava encontrar ou um velho de barba e batina branca, ou, tomara que não, um ente vermelho com chifres e rabo. Por um momento repassou os feitos de sua vida. Não achava que merecesse o inferno, mas mereceria o paraíso?
Outra surpresa! Quem apareceu foi um jovem vestido a executivo, habilmente manejando um ipad de última geração.
- Morri? Ou estou sonhando?
- Olá Risonho Sensalva. Não, isto não é bem um sonho. É um levantamento preliminar dos seus dados de vida, para o desenlace futuro. Você ainda não morreu, o que acontecerá num futuro incerto. Mas com o tamanho da população atual, temos que agilizar no processamento dos dados. Notou que não há fila por aqui? É graças a estas providências de planejamento.
- Quer dizer que ainda não morri, mas vou morrer em breve?
- Ainda não morreu. Quando vai morrer, se é em breve ou não, só Deus sabe.
- Mas não é ele quem dirige isto aqui?
- Não. Na verdade este é um serviço terceirizado. Atendemos a vários clientes.
- Mas se não sabe quando vou morrer, como é que pode fazer este levantamento?
- Não se preocupe, Risonho. Isto não é um sonho, mas é como se fosse. Quando você acordar pela manhã, não vai lembrar de nada disto. Sua vida vai continuar como sempre. A morte é certa, mas incerta na sua hora. Mas vamos ao que interessa. O que você tem a dizer sobre sua vida? O que lembra que poderia credenciá-lo para um ou outro caminho no fim de sua vida?
Risonho calou-se momentaneamente, pensativo. Então começou sua defesa.
- Bem, desde criança fui sempre um bom aluno...
- Ora, a importância da educação formal anda muito relativizada. Hoje se considera que qualidades como empreendedorismo, iniciativa, agressividade e malícia profissional são mais efetivas para o sucesso...
- Ah, sim, sim... Mas nos meus amores, desde jovem, fui sempre muito respeitoso e fiel...
- Ora, essas qualidades também andam em questionamento. Uma certa ousadia é essencial para apimentar os relacionamentos. E fidelidade... Ora, está provado que o ser humano é, definitivamente, um ser infiel. A plenitude dos relacionamentos depende da concorrência. Funciona como nos negócios.
- Fui um bom pai de família? (a esta altura Risonho já duvidava de seus feitos).
- Muitos acreditam que o núcleo familiar é a principal estrutura perpetuadora de vícios, preconceitos e atavismos...
Já se desesperando de perceber que o homem desqualificava tudo que pensava que tinham sido virtudes em sua vida, Risonho Sensalva começou a exasperar-se.
- Fui um profissional ético, que sempre procurou agir no interesse dos direitos daqueles a quem servi, da qualidade, da honestidade, da justiça e da verdade...
- Ora, estamos num novo tempo. Nem sempre o cliente tem a razão. Aliás, quase nunca tem a razão. Não sabem que decisão tomar de forma a fortalecer o mercado, que é quem mantém os empregos e a produção. Já qualidade, meu amigo, quer dizer durabilidade. E se algo dura, a fábrica fecha! E para onde vão os empregos? E honestidade, justiça e verdade! Ora, esses conceitos são muito relativos. O que pode ser honesto e justo para um indivíduo pode ser prejudicial para a sociedade. E vice versa. Verdade então! Existe uma verdade diferente para cada ser humano!
- Ah, sobre isto tenho minhas convicções. E não abro mão! Sempre procurei seguir os ensinamentos de minha religião. De que devemos agir com o próximo da mesma maneira que queremos que ajam conosco. Isto me faz crer no respeito, na solidariedade, na justiça e na inclusão social, no amor...
De repente, Risonho Sensalva despertou em seu quarto de dormir. Era uma manhã corriqueira. Ele tinha a sensação de que algo se passara, mas não conseguia se lembrar do que era.
Lá no portal do fim da vida, o executivo Rufinus Mercadante, pensativo, digitava em seu ipad:
- Esse é de outro tempo. Vai ter de reencarnar! E vai ter de renascer como, como...
Hesitou um pouco.

- ... palhaço! 

domingo, 25 de junho de 2017

Farinha do mesmo saco?

 Diante da chuva de denúncias de atos ilícitos envolvendo as maiores autoridades do país, de governantes, do legislativo e do judiciário, algumas dúvidas emergem: são todos iguais, farinha do mesmo saco? Não se pode mais confiar em ninguém? O que será do Brasil? O que podemos fazer por nós e pelo país? Não há mais esperança?
Perguntamo-nos se, seja qual for o partido, seja qual for a ideologia, seja qual for o cargo, seja qual for a origem e os eleitores, são todos ou corruptos de nascença, ou corruptíveis pelo sistema político degenerado que se instalou no país.
Há as chamadas pedaladas fiscais, o superfaturamento de obras, as propinas de empresas, o uso de verbas ilícitas nos caixas dois e três de campanhas eleitorais, o suborno de governantes, políticos e juízes para compra de decisões, a arapongagem (escuta ilegal), os desvios de verbas públicas... São muitos crimes! Há como distinguir quais os mais ou menos desprezíveis? Mas, por certo, todos são crimes, e todos têm que ser firmemente combatidos.
Mas talvez existam níveis de criminalidade mais nefastos. Entre eles, o de julgar que seres humanos não sejam iguais, que sempre haverá um grande rebanho de párias inferiores, que precisam ser sacrificados em nome da satisfação dos desejos dos privilegiados das castas nobres. Os praticantes deste crime são segregacionistas, intolerantes com diferenças de raça, religião, cultura, sexo, ideologia, classe social...
Ele confunde-se com o crime da soberba, com o próximo, com animais e plantas, com a nação, com o planeta. Este crime resulta da falta de percepção do mundo para além de si mesmo. Resulta de um exacerbado egocentrismo, que gera não só a ambição insaciável, mas também a falta de princípios éticos, a falta de fidelidade a um ideal, a um grupo ou família, a um programa de partido, a um país. Os praticantes deste tipo de crime são capazes de assaltar os cofres públicos, envenenar alimentos, sabotar a merenda escolar, falsificar medicamentos, enganar os eleitores e amigos, empobrecer os pobres e enriquecer os ricos, contaminar as águas e o ar, exaurir os solos, ameaçar a biodiversidade, lotear empresas, terras e o patrimônio natural do país.
Será que hoje em dia todas as autoridades têm cometido os mesmos tipos de crimes? Talvez uma maneira de discernir entre os tantos erros e crimes que têm sido cometidos é procurar enxergar quem tem cometido os crimes de discriminação social, de entrega dos bens e riquezas do país e de disseminação da desesperança.
Não pode haver crime pior do que o da desesperança. Há que cultivar a esperança para evoluir no sentido da justiça social, da soberania, da liberdade, da qualidade de vida, da solidariedade, da alegria de viver e do aprofundamento da cultura, da arte e da sensibilidade. É isto que têm pregado os profetas das religiões, que temos venerado ao longo dos milênios, mas cujos ensinamentos resistimos assimilar.
Entre os tantos crimes que têm sido cometidos nos tempos atuais, é imprescindível saber discernir. Há entre eles erros que são passíveis de correção. Errar é humano, e mais humano é reconhecer o erro e procurar corrigi-lo.
Mas a índole de semear desesperança e acomodação para amealhar proveito próprio, este é um crime que tem que ser vencido com firme luta. A luta pela esperança. Luta por mudança, que se alcança com discernimento e engajamento.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Esperança

Publicado no Diário dos Campos em 15/06/2017

O Brasil é um país singular, talvez por este motivo tenhamos tanta dificuldade de deixar de ser o país do futuro para nos tornarmos uma nação do presente, com justiça, qualidade de vida e soberania. Temos uma dimensão continental, um povo miscigenado, o que, se não chega a eliminar segregações, muito às reduz em comparação com outros países, somos riquíssimos do ponto de vista de recursos e maravilhas naturais, nosso povo fala uma única língua e tem índole alegre, amistosa, pacífica e otimista. 

Mas sabemos muito bem que virtudes despertam a cobiça e a inveja. Por isso, é preciso saber proteger as virtudes. É possível que em primeiro lugar, neste momento que vive o país, seja necessário proteger a índole amistosa, pacífica e otimista de nosso povo. Estas virtudes serão essenciais para que possamos defender as demais.

A índole amistosa e pacífica parece andar estremecida pela polarização em torno de escolhas ideológicas e partidárias. É antiga a máxima de que com amigos não devemos discutir religião, futebol e política. Mas agora diferenças de opinião sobre política resultam em inimizades e mesmo hostilidades e agressões. Se refletirmos desapaixonadamente, constatamos que erros e acertos existem nas várias tendências políticas e partidárias, mas como nunca antes lados opostos acusam-se mutuamente de corruptos, bandidos e entreguistas, ao mesmo tempo em que se consideram donos da verdade e da santidade. O que teria conduzido o povo amistoso e pacífico a essa agressividade? Estaríamos sendo vítimas da disseminação de uma planejada discórdia, atendendo ao aforismo “dividir para governar”? E, se assim for, quem quer nos governar?

A alegria e o otimismo do povo brasileiro parecem também estar em crise, junto com a índole amistosa e pacífica. Um dos indícios da falta de confiança no país tem sido demonstrado pelos jovens talentosos e idealistas, que se qualificam profissionalmente em nossas universidades. Assim que obtêm o diploma, cogitam obter colocação profissional em Portugal, no Canadá, na Inglaterra, na Austrália... Dizem que o Brasil não oferece bons postos de trabalho, e, principalmente, o país não oferece perspectivas de um futuro seguro no que concerne ao trabalho, à justiça, à dignidade, à liberdade... E assim preferem ir-se embora.

Já houve época, lá pelos anos 1960-70, que jovens talentosos e idealistas abandonavam o país. Naquele tempo, exilar-se era questão de sobrevivência. Se ficassem, não poderiam manifestar suas ideias, não poderiam nem conversar sobre elas, sob risco de serem tachados de terroristas subversivos, e serem presos, torturados e até “atropelados” ou “suicidados”. Até os dias atuais ainda pagamos tributo àqueles sombrios tempos, pois muitas das mentes mais brilhantes do país ou evadiram-se para não mais voltar, ou foram caladas, ou calaram-se sob o peso de traumas inimagináveis. E deixaram um vácuo de idealismo humanista e patriótico que influencia até hoje as novas gerações.

Agora as razões para a desesperança no país são outras. Não é possível acreditar na construção de uma nação com os poderes todos tão corrompidos. Se não encontrarmos um caminho para que a ética e a solidariedade voltem a orientar os brasileiros, povo e autoridades, em breve o país estará entregue a uma quadrilha enraizada no poder e seus vassalos.