sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Fracassos e panelaços

Publicado no Diário dos Campos em 25/02/2016

          A grande mídia nos estonteia de tanto martelar: vivemos no Brasil uma crise sem precedente, um momento de indescritível fracasso. E não se cansa de atribuir tal fracasso a protagonistas cuidadosamente selecionados: os governos de Dilma e Lula (ou seja, do PT), a Petrobrás e a corrupção, que na visão dos jornalões, ocorre somente no PT e na aparelhada Petrobrás e suas parceiras.

          O fracasso do país se mede pelo pibinho e o dragão da inflação, pelas incontáveis denúncias de corrupção, pela falência de serviços públicos, pela ameaça de desemprego, pela derrocada do grau de investimento do país segundo agências internacionais. Tudo atribuído aos vilões que estão a fazer perder o país.

          Mas esta é a explicação para os problemas do país? A recessão não acontece só no Brasil, embora mundialmente afete principalmente os países que, como nós, são fornecedores de commodities para as grandes nações, elas também lutando com tempos difíceis e, por isso, reduzindo drasticamente suas importações. E se no Brasil a crise é aguda, talvez isso se deva mais a causas internas do que externas. Estas causas internas talvez não sejam os vilões propalados pelos jornalões. Todo economista sabe que um fator essencial na economia é a expectativa, que estimula investir para aumentar a produção. No Brasil, a grande mídia martela insistentemente o desestímulo, apregoando uma crise maior que a realidade. Isto além de razões ideológicas, quer dizer, sabotadoras, de muitos empreendedores que recusam investir durante um governo que se declara abertamente a favor da redução dos abismos sociais, econômicos, culturais. E, se não há investimento para aumentar a produção, cai o PIB, aumenta a inflação, diminuem os empregos...

          E a Petrobrás? A Petrobrás é fruto de lutas nacionalistas das décadas de 1940 e 1950, e sua criação nos moldes de empresa do monopólio do petróleo no país foi uma vitória de lutas populares e de homens públicos com verdadeiro espírito patriótico. E a Petrobrás cresceu até descobrir as grandes jazidas do pré-sal, que transformaram o Brasil de importador em virtual exportador da principal fonte de energia do planeta, que é hegemonicamente controlada por um cartel que não mede consequências para manter seu controle. Sejam fraudes, assassinatos, guerras, golpes de estado ou o que for. A Petrobrás é um gigante, mas está ameaçada pelo incessante bombardeio a que está submetida. A ponto de ver os legisladores apoiarem novas leis que retiram o pouco que ainda resta do histórico patrimônio representado pela empresa e pelas lutas que lhe deram origem.

          Mas e a corrupção denunciada na Petrobrás e em tantas empresas parceiras, sempre envolvendo políticos, aparentemente sempre com a predominância daqueles pertencentes à base do governo atual? Ora, brasileiros, querer dizer que a corrupção começou no país nos últimos quinze anos é uma farsa cujas consequências poderão ser funestas, a começar por inviabilizar qualquer esforço verdadeiro de acabar com ela. Não é possível acabar com a corrupção começando com a farsa de querer imputá-la a somente um segmento político ou empresarial do país. Infelizmente, a corrupção é um mal culturalmente enraizado não só nas instituições, mas no povo.

          E a derrocada do grau de investimento do país? Bem, primeiro é preciso lembrar que foi nos governos recentes, os vilões dos jornalões, que o país ascendeu ao grau de investimento. Antes, éramos tidos como de risco. Mas vale refletir um pouco sobre a credibilidade das agências responsáveis por tais classificações. A quem elas servem? Qual foi o papel delas durante a crise financeira de 2008 e 2009, que custou trilhões de dólares, pagos inclusive por nós, para salvar instituições financeiras fraudulentas nos EUA e pelo mundo afora? Aliás, crise da qual ainda sentimos as consequências.

          Bem, e o panelaço? O panelaço tem duas possibilidades: ou nos revela que os batedores de panelas são contra a redução dos abismos sociais, são contra a construção de um país com mais equidade, ou nos revela que a grande mídia e seus jornalões têm um elogiável poder de convencimento, capaz de fazer o cidadão equivocar-se totalmente com relação a quem são os vilões que se preocupam com interesses próprios e não com os interesses do país.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Vinganças divinas

Publicado no Diário dos Campos em duas partes (31 de janeiro e 3 de fevereiro de 2016)


Conta-se que o Criador, após criar o Planeta Terra e nele distribuir tendenciosamente os recursos naturais (ver o texto Estória da criação, neste blog), por muito tempo distraiu-se ocupando-se de criar e cuidar de outros mundos pelo universo sem fim. Um belo dia, lembrou-se daquele iluminado e abençoado planeta azul, e perguntou ao seu fiel ajudante:

¾ Pedro, e como vai o Planeta Terra?

¾ Ah, Mestre, está passando por um momento bem complicado...

¾ Como assim?

¾ Pois lembra-se que ele foi criado para ser um planeta de aprendizado pelo erro? Lá colocamos benesses indescritíveis, únicas em todo o universo, mas ao mesmo tempo para lá destinamos seres com a bênção da inteligência mas aos quais ainda faltam a moral e a ética?

¾ Sim, sim... Agora me lembro. Pensávamos que ao juntar esses ingredientes ajudaríamos a evolução daqueles presunçosos e deslumbrados seres. E no que foi que deu?

¾ Pois quero crer que estejam vivendo uma espécie de adolescência da civilização. Ao mesmo tempo que conquistaram maravilhas tecnológicas, ignoram os limites do respeito para com o próximo, para com o planeta, e até para consigo mesmos! Praticam iniquidades cotidianas, destroçam-se em guerras e em crueldades impensáveis, envenenam o planeta e até o próprio alimento... E eximem-se de qualquer culpa sobre tudo o que fazem. Culpam os governantes que eles mesmos escolhem, e às vezes culpam até nós, seus criadores! Parecem mesmo adolescentes, com o corpo maduro para enfrentar as agruras da vida, mas sem nenhum juízo para orientar as suas já evoluídas aptidões.

¾ Ora vejam! Mas há salvação para esses seres desnorteados?

¾ Vamos ver, vamos ver! Estão na adolescência de sua civilização! Se não se perderem embriagando-se nos poderes que descobrem nesta fase, poderão aprender com os próprios erros, e repensar os caminhos para uma civilização mais consciente, mais solidária...

¾ Lembro-me que ao distribuir as benesses naturais na Terra fizemos questão de concentrá-las naquele imenso país que se chamaria Brasil. E como vai essa nossa experiência?

¾ Ah, Mestre... É bem uma mostra do que vai pelo mundo todo. Lembra-se que apesar de sua imensidão e das incontáveis bênçãos que lá pusemos, seu povo andava com uma deplorável baixa-estima, a ponto de seus pensadores autoimputarem-se um tal “complexo de vira-lata”?

¾ Lembro, lembro... Mas fizemos algo a respeito, não foi?

¾ Sim, aproveitamos atributos daquele ultrajado povo, a ginga e a malícia, e os fizemos campeões mundiais de futebol. Passaram a ser admirados e respeitados em todo o mundo, o que lhes serviu para fortalecer a identidade e melhorar a autoestima.

¾ E então?

¾ Então que pouco mais de cinquenta anos depois, este povo, assolado por um ressentimento de origem muito vil, saiu às ruas para protestar contra o campeonato mundial de futebol no país. E o que é pior, na abertura do evento perpetraram a maior grosseria de que se tem notícia na História para com um dirigente legítimo, no caso uma mulher, ofendendo-a chulamente!

¾ Vixe! Quanto desatino... E como ficou isso?

¾ Nosso Departamento de Compensação de Iniquidades providenciou uma humilhante derrota de 7X1 para o time que até então tinha sido freguês. O que era um orgulho daquele povo virou sua vergonha. Vamos ver se eles aprendem...

¾ E estão aprendendo?

¾ Não sei não... Essas coisas demoram tempo até serem compreendidas e modificarem a postura do povo. Daquele 7X1 até hoje eles têm alimentado um ódio interno, que ora se manifesta nos estádios de futebol, ora se mostra em manifestações de protesto nas ruas, ora se manifesta contra governantes e ideologias. Aquele que era um país de povo pacífico parece que está alimentando um ódio interno, que pode resultar num conflito fratricida, e não numa luta contra alguma ameaça externa.

¾ Mas que coisa estranha, Pedro. Como é isso?

¾ Complicado, difícil de explicar. Parece que forças externas ao país ainda praticam aquela velha máxima “dividir para governar”. E o Brasil já ensaiava tornar-se outra grande nação a buscar seu espaço entre os poderosos, mas estes não desejam concorrência. E esses poderosos têm fortes aliados dentro do Brasil, que trabalham incansavelmente para alimentar o ódio interno. E o povo, que não gosta muito de refletir nem de assumir responsabilidades, deixa-se levar.

¾ O povo é assim, leviano e omisso?

¾ Pelo menos até agora muitos têm se comportado assim...

O Criador calou-se por um instante, parecia refletir com os imateriais botões de seu manto de luz. Então pronunciou-se:

¾ Pedro, isso não pode ficar assim! Desta vez vou antecipar-me ao Departamento de Compensação de Iniquidades. Já que parece que aquele povo está demorando muito para aprender a usar as bênçãos do discernimento e da responsabilidade, vamos diminuir-lhes a capacidade de pensar...

¾ Mas Mestre, como vamos fazer isso sem contrariar a lei da evolução?

¾ Ora, simples! Já tenho tudo planejado. Um mosquito disseminado pela própria negligência do povo vai transmitir um vírus que vai diminuir o tamanho do cérebro, e com ele a capacidade de pensar! Vamos ver se agora aprendem! E esse vírus vai se chamar Zika...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Aparição princesina

Publicado no Diário dos Campos em 24 de janeiro de 2016         

          Genoíno era um pacato operador de retroescavadeira que trabalhava na preparação das fundações dos grandes edifícios da cidade de Ponta Grossa (a Princesa dos Campos). Abria grandes buracos, estava acostumado a encontrar neles aquela rocha sedimentar lamosa e escura que cheirava enxofre.

            Um dia, durante uma das escavações, apareceu um homem com um martelo de pedreiro dizendo-se geólogo professor da universidade. O tal homem escarafunchou e martelou as pedras escavadas. Parecia um tanto abestalhado, olhava com uma lente e até cheirava os torrões arrancados do barranco. Depois mostrou a Genoíno algo que ele nunca notara antes: naquela rocha escura e malcheirosa apareciam muitas marcas que realmente lembravam conchas e outros bichos das praias, como as estrelas do mar. O dito professor falou que eram fósseis de animais marinhos do Devoniano, com mais de quatrocentos milhões de anos de idade!

      Na sua simplicidade, lá no seu íntimo, o operador de escavadeira desdenhou daquela presunçosa conversa de professor. Um mar com praias por aquelas terras tão altas? Quatrocentos milhões de anos atrás? Nem o dilúvio tinha ainda acontecido! E este planeta em que vivemos já existia lá há tanto tempo? É muito tempo! E quem pode querer saber o que acontecia por aqui, ou em qualquer canto deste mundo, tanto tempo lá atrás?

            Alguns dias depois, Genoíno acordou aos berros, suando em bicas, no meio da noite. A esposa e os filhos assustaram-se, o homem estava sentado na cama, os olhos esbugalhados, meio apatetado. Não reagia aos chacoalhos para tentar tirá-lo daquele transe.

       Aos poucos, ele foi se recuperando. Mas o medo ainda arregalava seus olhos, que iam ganhando vida própria, dando a entender que o pavor que o dominara recuava, mas não o abandonara de todo. Por fim conseguiu falar:

           ¾  Bobagem homem. Foi um pesadelo. Isso não existe...

      ¾  Não era bobagem! Eles queriam dizer-me algo. Para respeitar o cemitério...

          ¾  Cemitério? Vocês andaram escavando algum cemitério nas construções dos prédios?

           ¾  Não, não! Ou melhor, que eu saiba não... Em todo caso, amanhã vou ver isso.

            Voltaram a tentar dormir, debatendo-se com a inquietação e insônia.

            No dia seguinte, Genoíno procurou junto ao mestre de obras e engenheiros saber sobre o local que andavam escavando. Algum dia tinha sido um cemitério? Riram-se dele, todos foram peremptórios: por ali nunca houvera um cemitério, nem mesmo nos tempos dos caingangues nem da colônia, pois o terreno não era apropriado para o descanso dos mortos. Nenhum ser com algum juízo enterraria seus mortos em ladeiras como aquelas.

            Embora convencido da verdade do que ouvira, Genoíno não se sentia tranquilizado. Algo ainda fazia parecer-lhe que o pesadelo fora um aviso, realista demais.

            Na noite seguinte, outra vez acordou aos berros e suando. O mesmo pesadelo. Ao mal conseguir falar, saíram-lhe embargadas as palavras:


          ¾  O cemitério tem quatrocentos milhões de anos! Toda a cidade está construída sobre ele! Era onde iam morrer os seres mais evoluídos que existiam na Terra naquela época...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O descobrimento do Brasil (ou "Votos para 2016")

          Não o descobrimento do Brasil de desventuras, que todos pasmamos hoje. Mas o descobrimento do novo Brasil. Novo ao contrário deste velho Brasil de vícios e improbidades, que não era assim, quando foi descoberto há cinco séculos pelos que aqui aportaram vindos de fora. O novo Brasil vai ser descoberto pelos de dentro. Aqueles de dentro a quem ainda resta a esperança, resta a lembrança do significado da palavra nação, resta o espírito de fraternidade que alimenta os homens e mulheres que já souberam o que é a fome, a vergonha, o medo, o cativeiro, o desterro, o vazio de perdas irreparáveis.

          A descoberta do novo Brasil vai soar como um tremor das almas, a lhes alumiar o desejo de liberdade, dignidade e concórdia. Esta alma do novo Brasil vai ser urdida com o fermento de todos os incontáveis ingredientes deste nosso país continente. A começar pela inocente e despojada honradez dos silvícolas que os aventureiros portugueses por aqui encontraram. À qual foram se juntando as razões das hordas de degredados, de refugiados e de expatriados que por aqui aportaram e ainda chegam. Cada qual trazendo seu quinhão de sabença dos ardis do mundo e de sonho de um outro mundo, melhor que aquele deixado para trás.

          Não faltam dádivas da terra e dos céus para animar as gentes a descobrir esse dormente e novo Brasil. Não faltam a água e o alimento fartos para a saúde do corpo e da mente. Não faltam os deslumbres e assombros da exuberante natureza para a saúde do espírito. Não faltam os materiais e a energia para alçar a engenhosidade humana à quimera da descoberta não só do novo Brasil, mas também da nova Terra, e quiçá de novos mundos.

          E com tantas bênçãos e acertos, e depois de muitos desatinados delírios, o novo vai vir desassoberbado. Impregnado da paz, da tolerância, da cooperação, da confiança, aprendidas nos descaminhos. A nação inteira vai ser nova. O povo vai ser novo, pela novidade do alumbramento e do devir. Como que por milagre, tudo que era pequenez da saga humana vai dar lugar a grandeza, e as gentes vão se dar conta da largueza e da alegria dos sentimentos que acolhem e aproximam. Assim como é larga a generosidade desta Terra que tudo nos dá.

          Afinal, a compreensão das palavras iluminadas daquele primeiro descobridor é que vai fazer revelar o adiado e novo Brasil.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Diário da crise

          “Diário da crise” é o nome de um programa que todo dia vai ao ar em edição nacional na principal rádio de notícias do País, esta pertencente ao oligárquico cartel que controla ferozmente as comunicações em nossa Pátria. Valeria muito todo cidadão procurar conscientizar-se do poder da grande mídia em controlar os destinos do mundo. Há um sem número de estudos a respeito, em livros, teses acadêmicas, filmes, peças teatrais... Para começar talvez se possa pensar no livro Controle da mídia – os espetaculares feitos da propaganda de Noam Chomsky, que entre outros alertas, esclarece as eficientes estratégias utilizadas pela grande mídia para manipular a opinião pública.

          Aliás, estratégias que não são novas. Já mostraram sua impressionante eficácia ao conduzir a nação alemã à loucura do nazismo e ao conduzir vários países do mundo a genocídios fratricidas, como foi o caso de Ruanda na África na década de 1990. Que desvirtuamento! O poder da grande mídia poderia estar direcionado para o engrandecimento da humanidade, para o fortalecimento da democracia, da identidade, da liberdade, da cultura e da soberania dos povos. Mas infelizmente não é isso o que se observa ao longo da história. A grande mídia tem sido na verdade uma ferramenta dos poderosos para manipular a opinião do povo, transformando-o em massa de manobra que reage irracionalmente no interesse dos controladores da mídia, e não no interesse do povo.

          Vejamos o caso do Brasil, onde atualmente acontece o “Diário da crise”. E não é só este programa, todo o noticiário político e econômico é editado de forma a ressaltar os fracassos e esconder os sucessos do governo federal atual. Ao mesmo tempo em que se ressaltam os sucessos e escondem os fracassos dos governos dos apaniguados da mídia. A informação é sempre manipulada de modo a imputar os fracassos a uma das tendências ideológicas do País. E os sucessos à outra tendência, aquela dos protegidos da mídia.

          Poderíamos simplificar e dizer que falamos das tendências cujas siglas são PT e PSDB, que polarizam hoje o embate político/ideológico, já que outras siglas, como o PMDB, são camaleoas, não têm cor definida e assumem a defesa de interesses de conveniência. Mas esta simplificação não retrataria bem a realidade. As tendências em confronto têm natureza milenar, pois de um lado encontram-se as massas que vivem da força de seu trabalho e aspiram emancipação, justiça social e liberdade. E de outro agrupam-se aqueles que acreditam na força do poder da riqueza e da exploração do trabalho alheio. Ainda que para isso seja necessário impor condições injustas e até desumanas.

          Mesmo que esta polarização seja uma forçada dicotomia, como regra geral é legítima.  Seria mais realista denominar a luta de classes de guerra de classes, tantos foram suas vítimas. E, como em toda guerra, a primeira a sucumbir é a verdade, incansavelmente vilipendiada.

          A devastadora manipulação atual imputa aos trabalhadores e aos governos por eles eleitos todo tipo de fracasso: incompetência para governar, recessão econômica, caos político e toda forma de corrupção. O cidadão menos atento às artimanhas e manipulações midiáticas passa a acreditar na impotência do simples trabalhador na tarefa de transformar o mundo, e até de cuidar de si próprio.

          Neste afã de manipulação e convencimento perpetrado pela grande mídia, colocam-se em risco as ainda frágeis conquistas de nossa jovem democracia: o fortalecimento das instituições democráticas, o crescimento da grande empresa nacional de petróleo, a ascensão do País ao grau de investimento, a liquidação da colossal dívida externa deixada pelos governos anteriores, a melhoria na distribuição de renda, a diminuição do desemprego e da miséria, a melhoria da qualidade de vida da população mais pobre...

          Os controladores da mídia não têm escrúpulos em apoiar no parlamento um velho e astuto lobo notório pelas muitas trapaças e truculências em sua longa vida política dedicada ao interesse próprio. A ele está dada a incumbência de sabotar a presidenta que chegou pelo voto ao governo, e que tem na sua história de vida a luta pela liberdade e pela justiça, e cujo governo tem como metas a distribuição de renda, a justiça social e a soberania do País. Na faina de desmoralizá-la, acusam-na da praga maior do Brasil, a histórica corrupção. Assim fazendo escondem que esta praga que devora as riquezas e a moral do País está historicamente entranhada na identidade nacional, e que para ser vencida necessita de firmeza e honestidade. A começar pela honestidade da informação.

          Além do grande ultraje de ver a idealista presidenta colocada no mesmo nível do velho e astuto parlamentar, outras afrontas têm sido imputadas ao País. A voracidade das acusações faz o volúvel mercado hesitar, a economia regredir, o País perde o grau de investimento, e diz-se que é a incompetência do governo. Será? Ou serão os manipuladores da mídia, com o caos político que provocam, e os empresários, que se recusam a investir e a aumentar a produção, pois deliberadamente querem sabotar o governo, e assim fazendo na verdade sabotam todo o País?

          E a empresa estatal de petróleo, que já foi um exemplo para o mundo? Revela-se agora com grande estardalhaço que ela é envolvida por uma trama de corrupção, e o diário da crise apressa-se em atribuir esta corrupção ao governo atual. Mas esconde que tal trama corrupta que amarra a grande empresa já era conhecida lá atrás, em governos de outras cores. E também esconde que, infelizmente, em todo o planeta o inescrupuloso poder da riqueza do petróleo derruba e elege governos, às vezes através de fraudes colossais, e move guerras hipocritamente atribuídas à libertação de tiranias detentoras de armas de destruição em massa.


          Quantos ultrajes têm sido imputados ao País, e quantos ultrajes o País tem se deixado imputar! Ou será que na verdade secretamente muitos brasileiros nutrem o desejo de serem aceitos no clube dos manipuladores da mídia, e virem assim a se tornar um deles? Se assim for, então antes temos de aprender o valor da cooperação, comparado ao da competição.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O maestro da Av. Carlos Cavalcanti

          Não sei bem se lhe cabe o título de maestro, pois o que ele rege é uma desproporcional caixa de som tonitruante que ele carrega atada ao bagageiro de sua surrada bicicleta. Também não sei se está certo dizer que ele seja da Av. Carlos Cavalcanti, porque embora nossos caminhos sempre se cruzem por lá, é bem provável que ele percorra com sua insólita sonoridade outros lugares da cidade, e é bem possível que o leitor o conheça de outras plagas.

          E, a bem da verdade, também não sei se lhe cabe o artigo definido ‘o’. Talvez seja mais acertado dizer que se trata de mais um dos vários maestros daquela avenida, pois que já encontrei muitos outros. Mas estes outros são figuras menos extravagantes, regem seus ruídos, não sei bem se poderia chamá-los de músicas, em veículos equipados com potentes alto-falantes no volume máximo, as janelas escancaradas, e aquele tum-tum-tum monocórdio que faz vibrar os quarteirões próximos. Um incivilizado extravasamento de um ainda animalesco instinto egocêntrico?

          Mas voltemos ao nosso singular ciclista da Carlos Cavalcanti. Trata-se de um jovem já perto da meia idade, magro mas de estatura acima da mediana, trajado com roupas básicas de quem ganha a vida com o suor do trabalho e vive de jeito muito simples. Encontro-o sempre vindo no sentido do centro da cidade, ele mora para os lados de Uvaranas. E sempre antes das oito horas da manhã, tudo indica que ele seja um modesto trabalhador a caminho do trabalho.

          O ruído a título de música produzido pela avantajada caixa de som de sua bicicleta não pode ser considerado agradável aos ouvidos. Duvido que possa ser considerado agradável até mesmo pelo nosso excêntrico maestro pedaleiro. Então o que o faria exercer essa bizarra regência, espalhando ruidosa sonoridade pelo caminho? Estaria a anunciar-se ao mundo, e assim procurando encontrar alguma atenção, algum reconhecimento, que a vida lhe nega? Seria seu suposto exibicionismo uma tímida compensação da invisibilidade que imputamos às pessoas simples?

          E lembremo-nos que, aos humildes trabalhadores que não têm outra alternativa que não seja usar suas velhas bicicletas no percurso para o trabalho, fazemo-los tão invisíveis numa via nervosa como o é a Carlos Cavalcanti que frequentemente eles são atropelados. Seria esta a razão de ser do nosso maestro? Estaria ele prudentemente se fazendo anunciar por uma questão de segurança, de sobrevivência? Ou haveria ainda algum tipo de impensada desforra, tipo “vocês não me veem, mas são obrigados a me escutar”? Ou seriam ainda meus preconceituosos ouvidos que não sabem apreciar o som que nosso maestro generosamente espalha com a intenção de saudar a azáfama do início de manhã dos ouvintes?

          É possível que nem mesmo o nosso regente saiba ao certo qual a razão da excentricidade que o diferencia e o torna único. E os outros maestros do trânsito, aqueles que às vezes nos acordam nas horas do nosso sono da madrugada, passam com seus vibrantes tum-tum-tum reverberando todo o quarteirão, quais motivos os moveriam? E, se formos bem honestos, todos nós temos lá nossas excêntricas idiossincrasias, que nos fazem únicos. De que maneira as praticamos no dia a dia?


          Nesta busca pela identidade, torço para que nos encontremos nos seres ímpares que somos, sem que para tanto tenhamos que impor bizarrias aos tantos outros que compartilham conosco o afã do aglomerado urbano. Já pensaram, e se cada um resolvesse andar por aí com uma tremenda caixa de som reverberando os cérebros?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Impeachment ou golpe?

          Que momento surrealista vive nosso país! Assistimos de um lado os congressistas divididos, se apóiam ou não o pedido de cassação do presidente da câmara federal, alvo de várias denúncias de corrupção e improbidade. Este, terceiro homem na sucessão presidencial, em represália exerce o poder de desencadear processo de impeachment contra a presidenta, também por supostas denúncias de corrupção. Os parlamentares de oposição à presidenta querem que o processo de impeachment seja moroso, para dar tempo de mobilizar as massas. Julgam necessário percurso ao contrário daquele que cassou Collor, quando o impeachment nasceu nas ruas e contagiou o congresso. Agora, seria necessário tempo para ele sair do congresso e contagiar as massas nas ruas. E nesse meio tempo, alguns empresários e dignidades do país apelam por um processo rápido, pois o prolongamento da crise política seria um desastre para a já combalida economia do país.

          Vamos refletir um pouco sobre este quadro. Primeiro, perguntemo-nos qual seria o propósito destes dois protagonistas do momento, a presidenta do país e o presidente da câmara. Qual a história de vida dos dois, quais as acusações que pesam sobre cada um deles, em nome de quais ideais dedicam suas vidas? Aqui uma dificuldade, discernir entre fatos e factoides, estes últimos quase sempre criados para esconder os primeiros. Entre os factoides, aquele que circulou pouco antes da eleição da presidenta, de que ela seria assassina do tempo de militância contra o regime militar no Brasil. Só depois os fatos apareceram, ela não foi assassina, mas foi um dos muitos jovens idealistas, corajosos e inconformados com um regime ditatorial, este sim criminoso. Sobre as mentiras que movem as massas, é bom lembrar também o estouro do cárcere de Abílio Diniz na véspera da eleição de Collor. Os sequestradores, mostrados em cadeia de TV, vestiam camisas do PT. Só muito depois se revelou que as camisas tinham sido vestidas à força pelos agentes. Mas tudo isto esquecemos, uma característica nossa é a débil memória, assim como é débil o nosso discernimento.

          Qual é o propósito, a razão de vida dos nossos dois protagonistas do momento? O presidente da câmara, sua história parece apontar que seja alguém empenhado em ter poder pessoal, eivado de atos de truculência, e altos valores em contas bancárias na Suíça não declaradas. E a presidenta do país? Os pecados que lhe imputam são de cegueira com atos de corrupção na Petrobras e no governo e uma obstinada defesa e identidade com o PT, esse partido que a grande mídia oligárquica está demonizando no Brasil, como pelo mundo se demoniza o islamismo. Ora, brasileiros, vamos ter um mínimo de dignidade, e reconhecer que sistemas corruptos são a alma do país. Em tudo, e há muito tempo, as propinas, os subornos, os superfaturamentos, as gorjetas e as caixas-dois estão presentes. Ou não é assim? E esta é uma sangria que drena as riquezas e a moral do país, mas precisamos enfrentá-la com firmeza, e não com hipocrisia. Ou vamos acreditar que os responsáveis são os bodes expiatórios que a mídia tenta nos imputar? A mesma mídia que transmitiu ao vivo e em cadeia nacional os sequestradores do Abílio Diniz com as camisetas do PT?

          E qual o propósito da presidenta? Ora, pois a meu ver, não existe propósito mais nobre num ser humano que ter a coragem de dedicar sua vida em prol de causas em favor da liberdade, como na época da ditadura militar, colocando em risco a própria vida. E não existe propósito mais nobre que dedicar-se à busca da justiça social e da soberania, que é a busca de um partido de trabalhadores, surgido de lutas sindicais. E para tanto ter que sofrer o ataque e o desgaste de todas as forças reacionárias empenhadas em manter nossa sociedade dividida entre privilegiados e explorados.

          Que tremenda diferença entre nossos dois grandes protagonistas do momento! E o papel dos políticos de oposição, das massas e da grande mídia oligárquica? A oposição tem declarado que quer levar o impeachment do congresso (onde ele não vingaria sob o abrigo da lei) para as ruas. A mídia certamente empenhar-se-á em convencer as massas de que a presidenta é culpada de estar cercada por improbidades e de pertencer ao partido dos trabalhadores. E as massas? Terão as massas brasileiras alcançado algum grau de discernimento, terão superado sua débil memória, terão alcançado alguma confiança na capacidade de agir em prol da transformação de nossa perversa sociedade noutra mais justa, ética e humanizada?