sábado, 26 de maio de 2018

Herança maldita



Nestes dias de paralisação dos caminhoneiros, tenho me surpreendido com o tanto que tenho visto na web, nos jornais escritos, em conversas, a atribuição da culpa ao que está acontecendo ao governo Dilma, que teria quebrado a Petrobras, que agora se vê obrigada a reajustar o preço dos derivados do petróleo diariamente. Uma herança maldita dos governos anteriores. Junto com a profusão de afirmações como esta, vejo cada vez mais adesivos do Bolsonaro presidente, e de pedidos de intervenção militar.
Vamos refletir sobre a Petrobras. Graças a uma política de autonomia, grandes investimentos e a tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil para prospecção e extração de petróleo em águas profundas, a Petrobrás “descobriu” os enormes campos petrolíferos do pré-sal, em 2007. A existência dessas grandes acumulações de petróleo já era prevista pela teoria da Tectônica de Placas, anunciada na Europa por Alfred Wegener em 1912, mas só reconhecida pela comunidade científica na década de 1960. Foi por esse motivo que na década de 1970 a Petrobras desativou a sua Divisão de Exploração Sul, sediada em Ponta Grossa, e concentrou esforços de prospecção na plataforma continental, onde se situam as bacias de Campos e de Santos, de onde provém quase todo o petróleo produzido atualmente no Brasil. Em 2006 o Brasil tornou-se autosuficente, graças ao petróleo produzido na Bacia de Campos. Em 2017, graças à produção dos campos do pré-sal na Bacia de Santos, o Brasil exportou uma média de um milhão de barris/dia, aproximando-se dos maiores exportadores mundiais. E a produção do pré-sal está só no início, deverá crescer significativamente. Ou seja, a Petrobras não está falida, pelo contrário, apesar da sabotagem que vem sofrendo nos últimos anos, ainda é uma empresa fortíssima, detentora de tecnologia especializada, descobridora dos maiores campos petrolíferos do mundo nas últimas décadas.
Justamente por tornar-se grande produtora, e por ter sido um monopólio estatal, a Petrobras foi alvo de tantas campanhas, tanto ataques visando minar seu equilíbrio financeiro quanto sua credibilidade. Não é por acaso que a Venezuela está na enorme crise que vemos hoje, e o Brasil vive sua crise relacionada a preços de combustíveis. A Venezuela também, como o Brasil, tem tentado manter sua principal riqueza, o petróleo, um bem controlado pelo estado, protegendo-o da sanha do oligopólio que controla o petróleo no planeta. A indústria do petróleo é a segunda indústria que mais mobiliza recursos no mundo, só perdendo para a indústria da guerra, que é movida pela indústria do petróleo. As “sete irmãs”, corporações do oligopólio do petróleo, não poderiam tolerar que estatais de países sulamericanos ameaçassem seu controle sobre a principal fonte de energia do planeta. Daí as crises que vemos hoje no Brasil e na Venezuela.
As corporações transnacionais, aliadas com o interesse da hegemonia de poder mundial dos países onde mantêm suas sedes (EUA e Europa), sabotam os governos e as empresas, como a Petrobras e a PDVSA da Venezuela, que ousem desafiar seu oligopólio. É isto que está se passando no Brasil, onde os governos que fortaleceram a Petrobras e o monopólio estatal, através de políticas soberanas e pesados investimentos no desenvolvimento tecnológico da exploração em águas profundas, sofreram um golpe. E o mesmo está acontecendo, talvez de forma ainda mais aguda, na vizinha Venezuela.
Os preços do petróleo no mercado internacional são controlados pelo oligopólio. Eles podem mudar para favorecer o interesse das sete irmãs, ou para sabotar quem quer que lhes ameace a exclusividade, como as estatais de países periféricos. O oligopólio não mede esforços, nem consequências, para preservar seu domínio. A greve de caminhoneiros que vivemos hoje é só uma das muitas consequências. Outra é a mudança de governo. No Brasil assumiu um governo servil, submisso aos interesses internacionais.
E outra consequência, talvez ainda mais arraigada: a lavagem cerebral realizada na população, para que ela defenda os interesses de oligopólios estrangeiros ao invés de defenderem interesses de soberania nacional. Essa é a verdadeira herança maldita.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Eleição na Universidade

Publicado no Jornal da Manhã em 15/05/18.

Momento de eleição, momento de repensar a missão da Universidade pública. Dizer que seja ensino, pesquisa e extensão é estacionar na mesmice burocrática de quem não tem verdadeira compreensão do alcance do papel das instituições de ensino superior públicas. Na Universidade são formados professores, técnicos, os profissionais que dão continuidade à formação e ao aperfeiçoamento dos futuros profissionais. Os cidadãos, os homens (e, felizmente cada vez mais, as mulheres) públicos, os futuros administradores e tomadores de decisões que afetam toda a sociedade.
Historicamente, a Universidade tem sido a instituição onde se produz e onde se transmite todo o conhecimento essencial para o progresso da sociedade, pelo ponto de vista de quem a financia. Progresso não só tecnológico, mas sobretudo social, filosófico, moral, cultural... A Universidade pública tem, então, em tese, de priorizar o interesse de quem a financia: o público, o coletivo, visto que todos contribuem para seu custeio. 
As pressões para a privatização da Universidade são fortes: toda a estrutura construída com o esforço público passaria a interesses privados. Além do imenso negócio da formação superior cair nas mãos de quem prioriza o lucro, esta formação poderia então ser direcionada para os interesses dos negociantes.
Nos dias 15 e 17 de maio realiza-se a eleição para reitor e vice-reitor da UEPG. A UEPG é importante? Lamentável que ainda muitos neguem ou não enxerguem essa importância. Por sua antiguidade, tradição, alcance regional, multiplicidade de cursos e atividades, infraestrutura, a UEPG tem um potencial inquestionável. Acentuado pela singularidade da região e da cidade de Ponta Grossa. E qual a importância de sua direção, personificada antes de tudo pelo reitor e vice-reitor? Capital. São eles que definem a forma de preenchimento dos muitos cargos de confiança que vão administrar e determinar os rumos da instituição.
E atualmente quais deveriam ser estes rumos? Uma espiada na situação mundial e nacional pode nos dar algumas pistas. Vivemos uma época de retrocesso. Direitos humanos, conquistas trabalhistas, probidade, liberdade de expressão, inclusão social, respeito às minorias, igualdade de direitos, paz, soberania de povos e nações têm sido ameaçados e violentados em todo o mundo. E não é diferente no Brasil, onde os três poderes encontram-se em grave crise. Profundas distorções permitem que a insegurança e o medo intencionalmente disseminados sejam transformados em ressentimentos e ódios que só visam desarticular as forças sociais e facilitar a perpetuação de estruturas de dominação herdadas de séculos de escravatura. Insidiosa manipulação substitui o sentir e o refletir por reflexos condicionados, controla a opinião e constrói consensos avessos ao interesse coletivo.
A Universidade antes de mais nada tem de manter-se pública, e gratuita. Sua direção deve ter compromisso com o interesse da sociedade como um todo, não de corporações, ideologias e muito menos associações e sociedades secretas. E a sociedade é diversidade, é conflito. A Universidade tem de buscar condições de dialogar, de buscar e reconhecer consensos que signifiquem prosperidade da maioria. Para tanto é preciso que seja capaz de discernir, de analisar, de criticar, de autocriticar-se.
Que a comunidade universitária saiba escolher seus futuros dirigentes. Que estes tenham grandeza moral à altura do papel da instituição, que deve zelar pela capacidade de pensar e de fazer as escolhas mais adequadas para o aperfeiçoamento de nossa conflituosa sociedade.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Cegueira moral

Publicado no Diário dos Campos em 11/05/2018

Em seu instigante livro Ensaio sobre a cegueira, o premiado escritor português José Saramago (ganhou entre outros o Nobel de Literatura e o Prêmio Camões, máxima distinção literária da língua portuguesa) faz um provocante ensaio sobre como seria o comportamento humano caso nos víssemos livres das leis e convenções que nos governam e limitam nossos instintos. A partir de uma inexplicável epidemia de cegueira, os personagens do livro passam a uma selvagem disputa, primeiro por alimento, depois pelo poder e depois por sexo.
A cegueira visual, no caso do livro, liberta os demônios precariamente contidos pelas regras sociais quando estas colapsam. Mas não é necessária a ficção de um livro para nos mostrar do que somos capazes se nos virmos livres de regras. Basta ver o que acontece durante uma guerra ou qualquer outro conflito armado disseminado.
Existem outros tipos de cegueira: a religiosa, a política, a intelectual, a de sensibilidade... Mas talvez a mais insidiosa seja a cegueira moral, que impede de ver a diferença entre o certo e o errado, entre o que é socialmente aceitável e construtivo, e o que é prejudicial e destrutivo. Moral requer sensibilidade, empatia, solidariedade. Contrários a ela são a truculência, o individualismo ganancioso, a agressiva competitividade, a desfaçatez...
E como anda o mundo atual em relação a essas qualidades? De que forma têm agido os países que têm poderio militar e econômico? E as grandes corporações transnacionais? E as maiorias, étnicas, religiosas, ideológicas, como têm se comportado em relação às minorias? Qual papel têm exercido os grandes líderes mundiais, e mesmo os homens públicos em geral, até mesmo aqueles das pequenas cidades, muitas vezes eleitos pela população? Não são títeres a serviço de mesquinhos interesses corporativos que se confundem com ambições pessoais?
Parece que a civilização está sofrendo de uma cegueira real, não é a ficção da literatura de Saramago. Mas não é cegueira da visão, é cegueira moral, cegueira dos sentidos do que existe de humano entre nós. E, assim cegos, somos preza fácil de manipulações. Gostos de consumo, opiniões, comportamentos, ideologias são-nos imputados sem que nos apercebamos que acreditamos ser nosso o que nos é estranho. E passamos a consumir, a rejeitar, a odiar ou idolatrar aquilo que nos é subliminarmente induzido. Somos como cães das experiências de Pavlov treinados para ter os reflexos condicionados.
Não nos guiamos mais pela moral, noção muito íntima. Somos guiados pela grande mídia, pelo consenso construído, pelo nefasto exemplo dos homens públicos, eles mesmos já desmoralizados muito antes que nós.
Se pretendemos ver a humanidade prosperar e não sucumbir, agora que adquiriu o poder de autodestruir-se e de destruir o planeta, urge que recuperemos a visão moral.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Religião, futebol e política

Publicado no Jornal da Manhã em 25/04/2018

Ainda bem menino, frequentemente escutava meu pai dizer: ─ “Religião, futebol e política não se discutem com amigos”. Ele afirmava que tais discussões descambavam sempre para brigas, e amizades viravam inimizades. Dizia também que a afirmação já era dita pelo pai dele, meu avô. Portanto tratava-se de sabedoria popular antiga.
Qual seria o motivo destes temas, todos eles tão importantes, não poderem ser discutidos? Talvez pelo fato de que no Brasil são temas que abraçamos com paixão, sem nenhuma racionalidade? Basta observar as brigas que surgem quando começamos a discutir a nossa religião, o nosso time de futebol ou a nossa opção partidária ou ideológica. Brigas que em alguns casos degeneram em desvairada violência, como nos estádios de futebol, ou, felizmente ainda não no Brasil, em atos de terrorismo em nome de convicções religiosas e/ou ideológicas. Em outros casos, as divergências e as discussões políticas geram ressentimentos que vão alimentando ódios. Estes em nosso país vêm sendo extravasados em segregacionismos e agressões ainda não calamitosas. Até quando?
Por serem escolhas passionais, abdicamos de dedicar a estes três temas os mesmos cuidados de confiabilidade nas informações, reflexão, discernimento e objetividade que dispensamos a outros aspectos que nos são vitais, no trabalho, na saúde, no lar, nas finanças... Em se tratando da política, tal desobrigação de correção torna-nos analfabetos políticos. E não há nada mais nefasto para uma sociedade que os analfabetos políticos.
Mesmo na religião e no futebol a irracionalidade nos empobrece. A fé cega nos impede de ver e vivenciar os edificantes desafios e conquistas do livre arbítrio e da compreensão da fé diversa da nossa. O torcedor fanático não sabe apreciar o bom futebol praticado pelo time adversário. Sofre com ele. Mas não existe nada pior do que a irracionalidade política. Ela nos torna massa de manobra, gado tangido pelos dissimulados e insinuantes interesses que só desejam nos manter como um rebanho que serve ao deleite da insaciável cupidez da parcela de seres humanos que não logra encontrar outro sentido na vida que não seja possuir, explorar e degradar o próximo e o planeta.
A irracionalidade política cega mais que a fé cega. Persuasivas técnicas de manipulação de massas, que atuam via a grande mídia e atualmente também via redes sociais, deformam o que julgamos ser a nossa opinião, constroem uma opinião estranha, que serve à realização de objetivos que podem ser o oposto daquilo que nos beneficiaria.
E assim passamos a odiar o nosso vizinho, passamos a demonizar aqueles que se dedicam a uma sociedade mais justa, ao fortalecimento da soberania nacional frente a rapinantes e dominadores interesses internacionais. E endeusamos quem a mídia nos apresenta com maquiados ares de civilidade.
A irracionalidade, seja na religião, no futebol ou na política, resulta da intrínseca qualidade humana do comodismo. Discernir, deixar de ser irracional, demanda empenho e envolve incertezas e riscos. Mas se não tivermos a coragem de nos tornarmos menos irracionais, não deixaremos de ser rebanho tangido. Nossos sonhos de emancipação humana continuarão sonhos. E o Brasil continuará deitado em berço esplêndido.

domingo, 15 de abril de 2018

A riqueza da diferença



Vivemos um tempo em que as palavras tolerância, inclusão, alteridade, empatia e outras têm ganho muita expressão, justamente pelo recrudescimento de sentimentos e ações contrários ao que elas significam. Mas se refletirmos um pouco, a vida e a natureza já nos dão pistas seguras de caminhos que a humanidade deveria seguir para pacificar-se e harmonizar-se, e enfim canalizar seus enormes conhecimentos, recursos e tecnologias em prol da iluminação cultural e espiritual, e não de guerras, disputas e ódios, que só fazem acirrar.
Os ecossistemas já nos mostram o poder da diversidade. O clímax de uma biocenose, por exemplo uma floresta, seja ela amazônica, atlântica, de araucárias ou qualquer outra, só é alcançado quando condições favoráveis ao longo de tempo suficiente conseguem permitir que toda uma vasta comunidade de espécies, vegetais, animais, fungos, protistas e moneras, macro e micro-organismos, interaja de modo que cada uma contribua para o apogeu das demais. O mesmo se dá por exemplo no solo, ele só atinge sua fertilidade máxima com uma infindável coletividade de minúsculos seres que convivem numa cooperativa simbiose. E nos mares, rios e lagos o mesmo ensinamento: o equilíbrio e a evolução de toda a população dependem da interação das condições do meio e de inúmeras espécies vivas.
Já viram um plantio de araucárias? Em matas naturais, a araucária é uma árvore de grande porte, com robustos troncos e portentosos dosséis. Ela é a árvore mais majestosa, e sob sua generosa proteção desenvolve-se uma multiplicidade de outras árvores, muitas delas igualmente frondosas. Mas num plantio é muito diferente. Não existem outras espécies além das árvores plantadas, e estas são raquíticas, franzinas se comparadas com suas congêneres das matas naturais. Faltam-lhes os nutrientes que são liberados no solo graças à atividade das outras espécies. Assim são também os homens que desejam ver-se cercados senão por iguais. Falta-lhes grandeza, ficam incultos, pobres de ideias, de ideais e de sentimentos. Falta-lhes a compreensão de diversidade.
 Nós seres humanos parecemos ser uma espécie que ainda não aprendeu essa vital lição da natureza. Nosso impulso de predominar tem nos levado a comprometer tanto o meio ambiente que nos propicia as condições essenciais para a vida quanto as outras espécies que constituem conosco a vasta comunidade viva de nosso planeta nos tempos atuais. E, mais agravante, temos acirrado as desavenças e disputas entre nós mesmos seres humanos, seja pelo sempre renitente impulso de predominar, seja pelos instintos de repulsa e beligerância com o diferente, herdados de nossos ancestrais animais ainda completamente irracionais.
Uma metrópole cosmopolita qualquer do mundo, um aglomerado que congrega em sua população gentes vindas de diferentes lugares, povos e culturas, nos mostra, no ambiente artificial construído pelo ser humano, a riqueza da diversidade. A convivência com o diferente nos ensina que, ao contrário de nos ameaçar, ele nos enriquece. O convívio de raças, religiões, idiomas, alimentos, artes, sotaques, subjetividades e racionalidades diversas nos desarma de nossos preconceitos, e nos abre os olhos para quantos encantos estaríamos perdendo se nos víssemos privados desse edificante congraçamento. Numa grosseira comparação, seria como se tivéssemos que comer sempre a mesma comida, ver sempre o mesmo filme, ler o mesmo livro, escutar a mesma música... Ou ter sempre a mesma opinião.
Apesar dos conhecimentos e da sabedoria que já acumulamos ao longo de nossa história, ainda somos uma espécie muito jovem se pensarmos em escala de tempo de evolução do planeta Terra e da vida aqui encontrada, que se estende por bilhões de anos. O Homo sapiens tem apenas algumas dezenas de milhares de anos. Já somos capazes de destruir o planeta, mas ainda somos como adolescentes, não nos livramos de arraigados instintos primitivos de autopreservação da espécie, como a insegurança, a desconfiança, competitividade, agressividade e o segregacionismo de todo tipo.
Hoje o mundo está globalizado, a tecnologia e as facilidades de deslocamentos nos colocam em contato como nunca antes. Tal intercâmbio pressupõe que tenhamos maturidade e serenidade para saber interagir, respeitando e aprendendo com o diferente. Que sejamos capazes de tal interação, pacífica e compreensiva.

domingo, 8 de abril de 2018

Diferenciação, autopoiesis e comunhão

Publicado no Jornal da Manhã em 10/04/2018 e no Diário dos Campos em 20/04/2018

O livro O tao da libertação (Mark Hathaway e Leonardo Boff com prefácio de Fritjof Capra, Editora Vozes, 2012), no capítulo sobre cosmogênese, trata dos conceitos de diferenciação, autopoiesis e comunhão. Estes três conceitos parecem fundamentais nos dias de hoje em que no Brasil e no mundo constata-se retrocesso de valores civilizatórios e democráticos. Andamos confundindo estadistas, que se dedicam à justiça e inclusão social e à soberania frente a tirânicos poderes hegemônicos globais, com oportunistas, que se dedicam a satisfazer inconfessáveis ambições e atavismos pessoais, os quais muitas vezes incluem o serviço à tirania internacional ou à insânia pessoal. Estamos confundindo esclarecimento e entendimento com manipulação e ilusão. Estamos confundindo valores civilizatórios, tais como tolerância e solidariedade, com posturas que desagregam a sociedade, como segregação, intolerância e violência.
Segundo os autores do livro, o cosmos já nos mostra, numa macroescala, os significados dos três conceitos: diferenciação é o momento do big-bang, quando a energia concentrada num ponto expande-se e começa a diferenciar-se nos inúmeros mundos que conhecemos hoje; autopoiesis é a evolução dos mundos em suas singularidades, tal como a Terra, que por bilhões de anos tem evoluído para ter hoje as extraordinárias condições para dar suporte à vida como a conhecemos; comunhão é o colapso previsto pelos astrofísicos no chamado big-crunch, quando todo o universo voltará a contrair-se. O cosmos também viveria ciclos, ou “respiraria”, como noite e dia, verão e inverno, glaciais e interglaciais, expiração e inspiração, os batimentos cardíacos... Mas os conceitos também são aplicáveis à natureza humana, a como evoluímos como pessoas e como espécie.
Diferenciação seria então a nossa individuação, quando passamos a ter personalidade própria, e deixamos de ser gado tangível, ou massa de manobra. A rebeldia talvez seja o primeiro sinal da diferenciação, é bom que cuidemos de entender que um jovem rebelde mostra sinais de que está evoluindo para além da mesmice das massas amorfas, é bom que saibamos orientá-lo para avançar para os conceitos seguintes. A diferenciação, ou individuação, é essencial para que comecemos a ser capazes de refletir sobre as trocas que vivenciamos entre nosso interior e o exterior. Passamos a ser mais críticos, passamos a pensar, passamos a discernir.
Autopoiesis ou autopoesia é o passo seguinte. É a construção da poesia em si mesmo. Poesia no sentido de sensibilidade, reconhecimento e valorização do belo e do sublime, evolução da sabedoria e força interior, fortalecimento e  aperfeiçoamento do caráter alcançado na diferenciação. É quando construímos nossa identidade, nossa subjetividade, nos organizamos interiormente através de valores e condutas harmoniosas e edificantes.
Comunhão começa quando, com a maturação da autopoiesis, conseguimos sair de nós mesmos e estabelecemos a empatia com o que nos cerca, os outros seres humanos que são o nosso próximo, os outros seres vivos do planeta, o planeta que é nosso lar e nos supre tudo que necessitamos para viver. O início da comunhão nos torna mais tolerantes, mais compreensivos, mais generosos, mais responsáveis, conosco mesmo, com a diversidade de seres humanos tão desiguais com quem compartilhamos este momento na existência do planeta, com animais e plantas, com as águas, os solos, as florestas, o ar que respiramos... Tão quimérico quanto imaginar o big-crunch da cosmogênese, seria imaginar onde nos levará o clímax da comunhão. Talvez o congraçamento das almas numa única alma iluminada, como é a crença de algumas religiões orientais.
Deveríamos refletir sobre os conceitos de diferenciação, autopoiesis e comunhão. Quanto já conseguimos nos diferenciar, isto é, quanto já deixamos de ser como gado tangido? Quem estaria hoje a nos tanger? Talvez a grande mídia, talvez as fake-news que incorporamos e replicamos sem um mínimo de discernimento? Talvez simplesmente um consenso construído sabe-se lá por qual soma de agentes que têm o propósito de nos manipular?
E como anda a nossa autopoieisis, que poderíamos traduzir como a nossa educação, a nossa cultura, o cultivo de valores civilizatórios e generosos que nos ampliem e melhorem nossa visão de mundo e de humanidade?
Parece que estes três conceitos estão contidos nas mensagens que nos foram trazidas pelos grandes missionários das religiões do mundo. Cristo teria dito “amar ao próximo como a ti mesmo, e a Deus sobre todas as coisas”. É possível que não estejamos sabendo amar nem a nós mesmos, quanto mais ao próximo. Quanto a Deus, visto que mesmo os teólogos divergem sobre quem seja, podemos admitir que ele esteja manifesto na Natureza, no Universo. Está manifesto também nesta maravilhosa singularidade que é o planeta Terra. Como temos cuidado dela?

quarta-feira, 28 de março de 2018

Ponta Grossa no divã

Publicado no Diário dos Campos em 28/03/2018

      Ponta Grossa protagoniza eventos que fazem pensar que a cidade, ou uma parte expressiva de sua população, andam a precisar de sessões no divã de Freud, para tentar exorcizar alguns arraigados atavismos. Entre estes eventos, alguns míticos, podemos mencionar: a cidade que negou o copo d’água ao beato João Maria, e que este em vingança teria amaldiçoado a ela e sua população; a única cidade do Brasil em que Guilherme Afif Domingos, um candidato inexpressivo de um partido inexpressivo, foi o primeiro colocado numa eleição presidencial fortemente polarizada entre dois candidatos, um fabricado pela mídia, outro representando a esquerda de origem popular; a cidade que tem uma associação de empresários que foi acionada pelo Ministério Público por ter proposto publicamente que beneficiários de programas sociais não pudessem votar; a mesma associação que vem a público reiteradamente apoiar o general que se manifestou na mídia a favor da volta da intervenção militar no país (a ditadura militar), o qual por este motivo foi afastado de suas funções pelos seus comandantes; a cidade da vereadora que simulou o próprio sequestro; a cidade cujo time de futebol só conseguiu sagrar-se campeão após um século de existência, e que no ano seguinte foi rebaixado à segunda divisão do campeonato estadual; e, agora, a cidade que organiza acolhida, manifestação e passeata em favor do candidato militar de terceiro escalão à presidência da república que se manifesta abertamente a favor da violência do aparato do Estado, do segregacionismo (homofobia, xenofobia, misoginia, etc.), diz que bandido bom é bandido morto, e outros absurdos que só demonstram quanto é rancoroso e não foi educado aprendendo valores civilizatórios.
O que acontece com essa provinciana e amedrontada parcela da população de Ponta Grossa, que embora talvez minoritária, é quem ainda prepondera na sociedade local, dominando a mídia, elegendo seus representantes e controlando as decisões que são tomadas na cidade? Talvez só mesmo Freud explique! Talvez o histórico de pouso de tropeiros itinerantes, que sem raízes territoriais onde fincar a identidade fincam-na nas ilusões da posse de bens e de posição social? Talvez a herança de privilegiados sesmeiros que abocanhavam suas posses graças à subserviência ao poder imperial? Talvez resquício dos tempos da escravidão, em que casa grande e senzala eram mundos fendidos, assim como hoje pobres e trabalhadores devem continuar a servir à sanha e ambição insaciável dos proprietários e empreendedores? Talvez o assustado patrimonialismo de proprietários rurais que temem ver a ascensão social e econômica de parcelas maiores da população, limitando seus seculares privilégios? Talvez tudo isso junto e algo mais?
Na verdade, a vinda do candidato fascista e a calorosa receptividade que lhe é prometida por parcela da população hão de ter seu significado em benefício da evolução da consciência social e cívica da cidade. De acordo com os milenares princípios filosóficos orientais, ainda muito mal compreendidos entre nós, um extremo, no caso o retrocesso representado por tais bizarros eventos da elite econômica ponta-grossense, é a semente do extremo oposto, no caso a evolução para uma sociedade imbuída dos princípios de igualdade e solidariedade preponderando sobre a desigualdade, a exclusão, o segregacionismo e a exploração do ser humano pelo ser humano.
Evocando um princípio bíblico, que deveria estar norteando todos os cristãos, que constituem a maior religião do mundo, “bem aventurados os mansos e pacíficos, pois eles herdarão a Terra”. Bem aventurados os que se empenham em concretizar uma sociedade com justiça, solidariedade e inclusão social, pois eles substituirão os que apregoam a violência e o segregacionismo.