domingo, 16 de setembro de 2018

Autocrítica da crise (mea-culpa dos dissimulados)

Publicado no Jornal da Manhã em 24/08/18.

Que vivemos um momento de crise sem precedentes ninguém parece discordar. O desemprego avança, o crescimento e os investimentos estão estagnados, a dívida pública cresce, direitos trabalhistas regridem, a miséria volta a fazer parte do nosso cotidiano, o fascismo, o ódio e a violência revelam-se sem escrúpulos, a juventude demonstra que não acredita nos benefícios da educação nem no futuro do país, prefere vias alternativas para a sobrevivência ou sair do Brasil. Mas isso não é tudo. Os políticos e o judiciário nunca estiveram tão desmoralizados, a mídia nunca foi tão facciosa, o cidadão comum nunca esteve tão confuso diante de informações tão manipuladas ou mesmo propositalmente falseadas.
É bom que nos perguntemos: como chegamos a isso? E ao procurar respostas, é bom que tenhamos consciência de qual, ou quais cérebros estamos empenhando nessa procura: o cérebro ancestral reptiliano, que é movido a instintos básicos de sobrevivência e domínio territorial? o cérebro límbico, que é movido a laços de sangue, amizade e mesmo compadrios, estes muitas vezes ilícitos? ou o neocórtex, responsável pelo raciocínio lógico, a reflexão capaz de estabelecer relações de causa e efeito?
Do necessário equilíbrio de desempenho destes três cérebros nascem a coragem, a empatia, a compaixão, o discernimento. Qualidades imprescindíveis se almejamos uma sociedade mais justa, mais solidária, mais humanizada. Caso contrário podemos descambar para o ódio, a segregação, o nepotismo ou a crueldade e a dominação aparelhadas pela ciência.
Neste momento peculiar que vivemos no Brasil muito se tem falado das razões da crise. Fala-se na herança maldita deixada pelos governos anteriores, fala-se na incapacidade do partido que dirigiu o país de fazer autocrítica e reconhecer seus erros. Diante da crise que vivemos hoje, é imperioso que saibamos fazer crítica imparcial. O partido que dirigiu o país cometeu erros? Certo que sim, talvez o maior tenha sido submeter-se aos poderosos e afastar-se da população que o elegeu. E não conseguiu apoio popular no momento de enfrentar a sabotagem que lhe foi movida. O principal partido que estava na oposição cometeu erros? Tasso Jereissati, seu conceituado ex-presidente, acaba de reconhecer na mídia vários erros graves: a contestação do resultado eleitoral, objeção que estremeceu a democracia; o apoio a pautas-bomba que impediram o governo de governar; o apoio ao governo Temer que traiu o programa que o elegeu e aprofundou a crise; o não expurgo do senador presidente do partido Aécio quando este foi flagrado em conversas e acordos inadmissíveis para um homem público de bem.
Mas a crítica e a avaliação da crise que vivemos não devem restringir-se aos políticos e seus partidos. Já se tem visto a grande mídia questioná-los amiúde. E quem tem questionado a grande mídia? Quem tem questionado as corporações nacionais e internacionais, as associações e lobbies de empreendedores? E quem tem questionado o papel desse ente quase fabuloso, o intangível mercado? Quem tem questionado interesses internacionais empenhados em fazer fracassar o Brasil próspero e soberano, pois a eles interessa ter-nos como permanente colônia com mão de obra barata, exportadora de matérias primas sem valor agregado para depois importá-las industrializadas?
O momento que vivemos parece colocar o Brasil numa encruzilhada: ou escolhemos um caminho de violência e ódio, ou um caminho de submissão aos rapinantes interesses internacionais e seus prepostos locais, ou um caminho de justiça social e soberania nacional. O equilíbrio entre nossos cérebros, o reptiliano, o límbico e o neocórtex, deverá ajudar-nos a fazer uma análise equilibrada. Não podemos continuar agindo em política como passionalmente agimos com o futebol, a religião, os ídolos das artes marciais.
Oxalá logremos esse equilíbrio. Oxalá acordemos para o papel que têm exercido entre nós todos esses grandes protagonistas da nossa realidade: os partidos e seus políticos, o judiciário, a grande mídia, as corporações e lobbies de empreendedores, o mercado, os rapinantes interesses internacionais e seus prepostos nacionais. Mas, sobretudo, que logremos ser capazes de avaliar o papel mais importante: a nossa própria conduta e exemplo, o nosso voto.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Independência e sabotagem da Nação

Dia de comemoração da Independência, quase duzentos anos! Dia de reflexão. O Brasil hoje encontra-se em profunda crise, um retrocesso quase inimaginável. O desemprego avança, a dívida pública cresce, direitos trabalhistas regridem, a miséria volta a fazer parte do nosso cotidiano, o fascismo, o ódio, a violência revelam-se sem escrúpulos, a juventude nas escolas públicas demonstra que não acredita nos benefícios da educação, prefere vias alternativas para a sobrevivência.
Como chegamos a este ponto, depois de um perceptível avanço na democracia após a ditadura militar? Tentar responder a essa pergunta é essencial para podermos colocar o país de novo num rumo de progresso social, econômico e político, fortalecendo sua autonomia perante a rapinagem internacional.
O Brasil é um país continente. Com clima generoso, é o detentor dos maiores caudais de águas doces do mundo. É também o país que recebe a maior insolação, a energia do futuro. Tem minérios, solos agricultáveis, petróleo, uma espantosa biodiversidade que encerra incontáveis insumos naturais conhecidos e desconhecidos. Abriga uma vasta população com identidade cultural, religiosa e de idioma. Um povo de índole pacífica, amistosa e hospitaleira, os brasileiros são alegres, criativos, artistas por natureza.
Tudo isto faz do país uma jóia preciosa e rara, neste nosso planeta precioso e raro. Há muito despertamos a cobiça estrangeira. Mas de todas as ameaças, aquela que vem da águia cujas garras e bicos parecem querer subjugar todas as nações e povos do planeta é a mais ameaçadora. A águia é um predador implacável, insaciável. No Brasil, derruba governos eleitos (Getúlio, Jango, Dilma), implanta ditaduras e doutrinas de segurança criminosas, coopta uma elite mercenária tirana dominada por preconceitos atávicos e egoísmo desmesurado. Elite que não logra atinar com o ideal de uma nação justa e soberana, onde a igualdade de direitos e a ausência de privilégios fariam com que todos vivessem melhor.
O notável economista John Maynard Keynes na primeira metade do século XX já alertava que a economia saudável depende de três pressupostos: disponibilidade de bens, recursos para adquiri-los e vontade para produzi-los. E que esta vontade depende da expectativa. Para o economista, os empreendedores são movidos por um “espírito animal” selvagem, por isso a necessidade do controle da economia pelo Estado.
No Brasil, fez-se um esforço para aumentar a capacidade do povo simples para adquirir bens básicos, através de programas sociais, aumento dos salários menores, programas de investimento em obras de infraestrutura para avançar no pleno emprego, distribuição da renda. Mas a elite mercenária, presa de atavismos escravocratas que marcam a ferro e fogo a história do país, não suportou ver o outrora miserável prosperar. Controladora dos meios de produção, da mídia e dos políticos e legisladores, essa elite atrasada e assustada freou investimentos, travou o necessário aumento da disponibilidade de bens, desempregou, minou expectativas, alardeou e potencializou uma crise que poderia ter evitado, emperrou o crescimento, sangrou a economia.
E enquanto o fazia, usando a mídia a seu serviço, acusou o governo popular de ser o único responsável pela corrupção e os desacertos do país. Conseguiram o golpe que, mais uma vez em nossa história, derrubou o governo legítimo e colocou em seu lugar um fantoche dos interesses das corporações transnacionais e da elite mercenária, que estão fazendo o país voltar aos tempos da colônia fornecedora de matérias primas e de mão de obra escrava. A lógica de tais interesses é simples: prioridade para o mercado em detrimento dos trabalhadores, fortalecimento de uma casta de mercenários nacionais entreguistas com altos ganhos, internacionalização da economia, concentração da renda, empobrecimento da população simples.
E só o conseguiram porque a elite do país cumpre muito bem seu papel de mercenários entreguistas, que não conseguem colocar o interesse coletivo, o ideal de nação, acima de seus atavismos e ambições egoístas. Esta elite está sabotando o Brasil, um país que tem tudo para ser uma grande nação. E que não será independente enquanto a vontade popular não prevalecer.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A ACIPG e o voto consciente


 Publicado no Diário dos Campos em 23/08/2018
Alegro-me deveras de constatar a ACIPG – Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa –  engajar-se em campanha a favor do voto consciente. Concluo que agora a prestigiosa associação estará ela mesma esforçando-se por conscientizar-se das posições que tem abertamente defendido na cidade.
Primeiro, a posição de que os cidadãos que são beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família e outros não possam votar, pois sobre tais cidadãos poderia pesar a acusação de compra de voto. Fico muito feliz de ver a associação repensar esta assertiva por ela feita anos atrás. Até eu cheguei a pensar que, perante tal ponto de vista, não teria legítimo direito de votar, pois participava de projetos de pesquisa financiados pelo governo. Como beneficiário, era também alguém propenso a querer dar meu voto ao governo que me beneficiava. E como eu, também tantos outros beneficiários de programas governamentais, de crédito rural, de casa própria, de financiamento de veículos, negócios, empreendimentos, eletrodomésticos, não poderiam votar.
Depois, a posição de que a proteção ambiental atravanca a produção e a economia. Essa posição já havia sido fortemente defendida quando da criação das unidades de conservação federais na região nos idos de 2005-2006, como o Parque Nacional dos Campos Gerais. Mas foi nos ataques à Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, no ano passado, que a defesa dessa posição ganhou mais veemência. Entendo que ao propor a conscientização, a associação está se propondo a refletir sobre o papel das unidades de conservação, uma preocupação internacional prioritária. Elas têm a função de preservar condições ecológicas e ambientais imprescindíveis para proteger a vida no planeta, não só a biodiversidade que nos cerca, mas a própria espécie humana, garantindo inclusive o equilíbrio ecológico necessário para a manutenção da produtividade agrícola que nos abastece de alimentos e outros recursos vitais.
A terceira posição que espero que a associação esteja revendo em sua proposição de consciência é a do anúncio da defesa da intervenção militar como solução para os problemas atuais do Brasil. Quem faz tal defesa ou ignora História ou ignora o que sejam valores civilizatórios. Quem acredita que intervenção militar seja diferente de ditadura militar é de uma irremediável credulidade. Deveria conhecer melhor a história da ditadura militar no Brasil, que começou como um golpe para salvar o país. Deveria ler o livro “Brasil: nunca mais”, com prefácio do conceituado e saudoso Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, uma expressão do Catolicismo no Brasil, para conhecer a quais barbáries o estado de exceção pode conduzir. Barbáries que impõem sequelas ao país até hoje, ainda não nos recuperamos da violenta repressão a uma geração inteira de pensadores, de artistas, de nacionalistas, de idealistas, de homens públicos com verdadeiro espírito democrático.
Confiante que sou no poder da solidariedade e inclusão social, do senso de empatia e respeito para com a natureza e dos princípios republicanos para a transformação da sociedade de desacertos que vivemos hoje, saúdo a convocação da associação ao voto consciente. Mas fico com a forte impressão que, se pensamos em uma sociedade melhor, é ela, a associação, aquela que com mais urgência precisa fazer um severo exame de consciência.

domingo, 8 de julho de 2018

Diálogos celestiais também falam de futebol



─ Pedro, que comoção é aquela que estou sentindo naquele planeta miraculoso que criamos para experiências... como é mesmo o nome?
─ Terra, Mestre.
─ Isso, isso, a Terra. Onde colocamos benesses sem fim e aquelas almas recalcitrantes recolhidas por todo o universo que ainda tinham muito que aprender. É de lá que vem essa energia que estou sentindo que destoa de todo o cosmos?
─ É de lá mesmo Mestre.
─ O que se passa por lá? Alguma catástrofe natural? Alguma convulsão daquelas almas, que pelo que já vimos vivem a meter-se em guerras e conflitos?
─ É a copa do mundo de futebol, Mestre. Seleções dos países enfrentam-se, a vitoriosa é a campeã mundial de futebol. Acontece a cada quatro anos.
─ Mas, futebol?! Não é aquele esporte jogado até por moleques descalços e famintos de periferias miseráveis, em campos de terra ou areia nas várzeas ou nas praias? A bola às vezes improvisada com trapos e trastes velhos?
─ Isso mesmo. Justamente por isso tornou-se um esporte mundial, praticado por todos. A copa do mundo é o único evento esportivo que para todo o planeta. Todos a acompanham, até mesmo os países cujas seleções não chegam a classificar-se para o certame, que é muito disputado. Mas hoje em dia mudou muito. Continuam acontecendo peladas nas praias e várzeas como antes, é lá que aparecem os talentosos. Mas os craques são negociados a peso de ouro. Fortunas incalculáveis giram em torno dos clubes, das seleções, dos campeonatos e dos direitos de imagem.
─ Então é isso! E essa vibração que senti é em consequência de algum confronto especial?
─ Sim, foi uma partida em que jogou o Brasil, lembra-se? Aquele país que o Mestre propositalmente abençoou dentro daquele planeta já abençoado, mas que não vinha dando certo por causa dos desacertos de seu povo e dos dirigentes por ele escolhidos? Pois o Brasil já foi uma potência no futebol. Dizem especialistas que o esporte foi o responsável por erradicar um certo complexo de vira-lata que acometia aquele povo peculiar. O adversário do Brasil desta vez foi a Bélgica, dos chamados diabos vermelhos, um país da Europa. E eles venceram o Brasil. Foi um jogo disputado, mas os diabos vermelhos souberam se impor. Marcaram o primeiro gol meio casualmente, e então o time do Brasil abalou-se, desestruturou-se. Quase levou outros gols logo em seguida.
─ Óxi! Até no futebol essa concorrência... Nós tramamos para emancipar aquele país e seu povo, e vêm os diabos vermelhos e os derrotam?
─ Pois é! O Brasil vem sofrendo derrotas amargas. Há quatro anos a copa foi lá no país, e sofreram uma humilhante derrota dentro de casa, para adversários que eram tidos até então como fregueses históricos...
─ Estou me lembrando disso. Não foi quando nosso Departamento de Compensação de Iniquidades teve de interferir, por conta de uma grosseria sem precedentes para com a presidenta, a primeira mulher eleita para governar o país?
─ Isso mesmo Mestre. Sua memória está melhorando com aquelas rezas de Santa Luzia e as infusões de alho com losna.
─ Mas diga-me, como o Brasil que já foi uma potência no futebol anda sofrendo essas derrotas? Desta vez nosso Departamento de Compensação de Iniquidades não interferiu. Ou interferiu?
─ Não foi preciso, Mestre. O time pareceu encarnar a frouxidão do povo do país diante de adversidades recentes que têm acontecido por lá. Aquela grosseria com a presidenta eleita na copa anterior foi só um detalhe. Muita coisa tem acontecido desde então. Sabe aquelas benesses todas com as quais abençoamos aquele país continente? Os solos férteis, a água abundante, os rios e a energia hidrelétrica, os minérios, o petróleo e tantas outras coisas? Pois os brasileiros não estão zelando por elas. Estão deixando oportunistas inescrupulosos que usurparam o poder entregarem as riquezas do país a poderosos e corruptores interesses internacionais.
─ Uma pena, Pedro. Mas já prevíamos isso não é? Não foi por esse motivo que colocamos juntos no mesmo país benesses naturais e um povo ainda com muito a aprender?
─ Sim, foi isso mesmo. Foi proposital. Uma experiência.
─ Torço para que essa experiência dê certo! E aquele povo aprenda que é no caráter que praticamos no dia a dia que se forja o caráter para as grandes batalhas.

sábado, 23 de junho de 2018

Veneno remédio: o futebol e o Brasil


 Publicado no Diário dos Campos em 23/06/2018 e no Jornal da Manhã em 25/06/18.

A suada vitória nos acréscimos do Brasil sobre a Costa Rica nesta copa nos faz lembrar o excelente livro “Veneno remédio: o futebol e o Brasil” do interdisciplinar José Miguel Wisnik (professor de literatura, músico, ensaísta). No livro, o autor discute a importância do futebol para a construção da identidade e da autoestima do brasileiro, ajudando-nos a superar o complexo de vira-lata aprofundado com o “maracanazo” de 1950, quando o time do Uruguai calou um Maracanã lotado com perplexos cento e setenta mil torcedores, vencendo com uma heróica virada sobre a seleção canarinha.
O que pouco se sabe no Brasil, o que é explicado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano em seu livro “Espelhos: uma história quase universal”, é que o time do Uruguai tinha motivos de sobra para superar-se e vencer o favorito Brasil. Antes da copa os jogadores uruguaios tinham travado uma batalha moral e judicial em seu país, em favor da profissionalização e de contratos mais justos para os atletas. Tiveram de fazer greve e enfrentar a ganância de dirigentes e empresários, e nessa luta urdiram a têmpera e a solidariedade para vencer o Brasil naquela memorável final.
Contra a Costa Rica reapareceram alguns ecos daquela final, ainda que bastante mudados. Enquanto o time do Brasil procurou, principalmente com sua estrela maior, levar vantagem com simulações de faltas, o resultado não apareceu. Quando, muito em função da pressão da proximidade do fim da partida, as simulações deram lugar à garra e à objetividade, os redentores gols enfim aconteceram. Simulações buscando vantagens ilegítimas tornam o conjunto frouxo e ineficaz. A garra e a entrega trazem resultados.
Podemos fazer um paralelo entre essa angustiante partida de futebol e a situação do país. Assim como o time brasileiro, cheio de craques e com domínio do jogo mas com muitas oportunidades perdidas, o Brasil também tem muito potencial, mas tem perdido as oportunidades para consolidar-se como uma grande nação. Nossos potenciais são a nossa dimensão continental, as imensas riquezas naturais, a mestiçagem de povos e culturas com relativamente discretos conflitos, um único idioma, uma religião predominante, uma índole inegavelmente pacífica e amistosa.
Nossos erros, que acabam por aniquilar os muitos potenciais que temos, são também numerosos. O maior talvez seja a cegueira de não saber jogar como equipe. O exagerado individualismo de muitos, que na busca de satisfazer um egoísmo insaciável comprometem o desempenho do todo. Ao invés de levarem adiante uma jogada de equipe que beneficiaria o coletivo, procuram a glória e o proveito pessoal, e para isso não hesitam em simulações, fraudes, farsas, e o pior, perdem a cabeça e começam a cometer violências e falcatruas escandalosas.
Pena que, no nosso caso, os juízes pareçam ser irremediavelmente parciais e coniventes, e não contem com o auxílio de um arbítrio supostamente menos tendencioso e suspeito, como o vídeo assistente dos juízes desta copa.

domingo, 3 de junho de 2018

Lições da crise

Publicado no Diário dos Campos em 09/06/2018 e no Jornal da Manhã em 14/06/2018.
Quais aprendizados devemos colher da crise de caminhoneiros que parou o Brasil e transtornou a vida de todos?
É bom que tiremos lições dessa crise, sob pena de que ela não seja só uma crise, mas signifique um colapso. Lembrando, crise é quando o velho já está morto, e o novo ainda não nasceu. Colapso é quando o velho já está morto, e o novo já não tem como nascer. Que saibamos reconhecer os erros e dar vida ao novo, antes que seja tarde.
Quais erros temos cometido? São vários. Primeiro o erro de depender exclusivamente do transporte rodoviário, uma escolha de meados do século passado, que visou implantar a indústria automotiva neste nosso país continente. Escolha que priorizou o interesse das multinacionais automotivas, ignorando as peculiaridades do Brasil.
Depois o erro de depender de um sistema de produção de alimentos e produtos básicos que demanda transporte por longas distâncias. A produção e comercialização locais, diretas entre produtor e consumidor, praticamente inexistem. Se o transporte rodoviário para, o país para. Que tremenda vulnerabilidade logística!
Depois o erro de submeter o preço e a comercialização de bens estratégicos, como o petróleo e seus derivados, ao interesse de corporações transnacionais e seus acionistas, e não ao interesse da população e da soberania do país. É o grosseiro erro de acreditar que o mercado é melhor do que o Estado na gestão dos recursos estratégicos do país. Quem defende este erro ou é um ambicioso beneficiário direto de seus equívocos, ou alguém que ainda não refletiu sobre o conceito de “espírito animal” de John Maynard Keynes, um consagrado economista do século XX respeitado nos meios acadêmicos mas propositalmente esquecido pelos atuais adoradores do deus mercado. O “espírito animal” de Keynes manifesta-se sobretudo nos empresários, que encontram no adágio da livre concorrência o subterfúgio para a prática do salve-se quem puder, onde o mais velhaco é o mais favorecido. Um Estado verdadeiramente democrático forte é essencial para balancear o espírito animal e evitar as enormes desigualdades sociais que temos visto.
Há ainda o erro de acreditar em políticas de coalizão, em que interesses e princípios muito díspares conluiam-se oportunisticamente para exercer o poder, afastando-se do interesse da população e da ideia de construção de uma nação republicana e soberana. Mais hora menos hora as deserções e traições acontecem, as crises políticas sobrevêm.
E há ainda erros crônicos, decorrentes dos erros anteriores. Um sistema educacional fracassado, que não consegue formar cidadãos críticos e lúcidos, capazes de refletir e de intervir construtivamente nos destinos do país. Uma mídia viciada, que atende aos interesses de quem visa perpetuar privilégios de uma classe dominante atrasada. Um povo ignaro e manipulável, que facilmente é condicionado a abraçar causas retrógradas, como apoiar candidatos autoritários e pedir pela intervenção militar. Quem clama pela intervenção militar hoje ou é alguém mal intencionado, que enxerga nesse retrocesso a oportunidade para benefícios próprios, ou é alguém que desconhece o significado de uma intervenção militar, não viveu a ditadura nem conhece história.
A crise deflagrada pela paralisação dos caminhoneiros deveria fazer-nos refletir, e agir, sobre estes tantos erros que temos cometido, e com certeza muitos outros a eles associados. Se soubermos deixar de lado o nosso “espírito animal”, nossas ambições e paixões pessoais, e colocarmos o bem comum acima de nossas inseguranças e ganâncias, poderemos aproveitar a crise para corrigir os erros.
Que saibamos aproveitar a crise, antes que ela se torne um colapso de consequências imprevisíveis. Que esta crise marque o crepúsculo de uma época de sucessivos equívocos. Que o Brasil acorde de seu longo sono.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A crise por trás da crise dos caminhoneiros

Publicado no Diário dos Campos em 06/06/2018 e no Jornal da Manhã em 04/06/2018.

Por trás da crise da greve dos caminhoneiros, Felipe Coutinho, o presidente da AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobras – nos revela quais as verdadeiras causas dos seguidos aumentos dos preços dos combustíveis, que fizeram as estradas ficarem bloqueadas e o Brasil parar (ver em https://felipecoutinho21.wordpress.com/2018/05/27/entrevista-ao-brasil-247-sobre-a-politica-de-precos-da-petrobras/). A entrevista mostra que o Brasil tem exportado o petróleo bruto, que é refinado no exterior, principalmente nos EUA, e volta ao país com o preço mais alto, o valor agregado da industrialização lá fora. Enquanto isso, as refinarias brasileiras operam a 70% de sua capacidade. Ou seja, o petróleo que mandamos refinar lá fora e importamos mais caro poderia estar sendo refinado aqui.
 Como importamos os refinados pelo preço do mercado global, e este oscila ao sabor dos interesses das mesmas corporações transnacionais que importam nosso petróleo bruto e nos exportam de volta mais caro, a Petrobras vê-se na contingência de reajustar os preços de acordo com as diárias variações do mercado. Esse foi o principal motivo da paralisação dos caminhoneiros. Os custos do combustível sobem quase diariamente, o que não acontece com o valor do frete, que é sua receita.
E por quais motivos o governo estaria permitindo esta perversa negociação, que exporta o óleo cru como matéria prima relativamente barata e a importa na forma de refinados com valor agregado, enquanto poderia estar refinando aqui para a produção de combustíveis no país com preços livres das oscilações do mercado global?
Felipe Coutinho nos explica que a intenção do governo atual é, num futuro próximo, privatizar o refino e a comercialização de combustíveis no país. As potenciais empresas interessadas no negócio são justamente as transnacionais do petróleo. A elas não interessa um negócio onde os preços não acompanhem os preços praticados no mercado global. Então desde já o Brasil estaria se ajustando ao esquema pretendido.
Este esquema é o mesmo que tem vigorado desde o Brasil colônia. O país estaria destinado a ser um exportador de matérias primas relativamente baratas e um importador de produtos industrializados com valor agregado. A riqueza fica no país que agrega valor, e não no exportador de matérias primas. Isso aconteceu/ce com as madeiras nobres, a cana de açúcar, os minérios de manganês, alumínio, ferro e outros, a carne, a soja, e agora o nosso mais recente recurso natural exportável, o petróleo dos campos do pré-sal, descobertos em 2007. E fiquemos atentos, os próximos a serem visados são nossos aquíferos.
A lógica por trás de esquemas tão esdrúxulos é a lógica de priorização do interesse do mercado, em detrimento do interesse da população e da soberania nacional. Os recursos naturais de uma nação deveriam gerar riqueza dentro dessa nação, criar empregos, distribuir renda, contribuir para a prosperidade do Brasil, para a inclusão social e a diminuição da pobreza e das imensas diferenças sociais de nosso país. A riqueza oriunda de tais recursos deveria ser investida em saúde, educação, melhoria da infraestrutura, e em outras carências crônicas do Brasil.
Nunca a riqueza nacional, e no caso do petróleo estamos falando de uma riqueza exportável que descobrimos há uma década, deveria estar a serviço da sanha de inescrupulosas corporações transnacionais, regidas pela lógica do mercado e do lucro. O lema da Petrobras, criada em 1953, é “O petróleo é nosso”. Houve forte pressão popular para o caráter estatal da empresa, celebridades da época, como Monteiro Lobato e outros, engajaram-se na campanha de mostrar à população a importância do Estado manter para si o controle sobre riqueza tão essencial, pois os benefícios desta riqueza deveriam reverter em prol da população e da soberania do país.
Parece que essa rica história foi esquecida. É hora de relembrar população e governo que se o Brasil tem pretensão de acordar do berço esplêndido, e de ser o país do presente e não o eterno país do futuro, é preciso que deixemos de ser colônia exportadora de recursos naturais para satisfazer a sanha das corporações transnacionais e do mercado.