quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A ACIPG e o voto consciente


 Publicado no Diário dos Campos em 23/08/2018
Alegro-me deveras de constatar a ACIPG – Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa –  engajar-se em campanha a favor do voto consciente. Concluo que agora a prestigiosa associação estará ela mesma esforçando-se por conscientizar-se das posições que tem abertamente defendido na cidade.
Primeiro, a posição de que os cidadãos que são beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família e outros não possam votar, pois sobre tais cidadãos poderia pesar a acusação de compra de voto. Fico muito feliz de ver a associação repensar esta assertiva por ela feita anos atrás. Até eu cheguei a pensar que, perante tal ponto de vista, não teria legítimo direito de votar, pois participava de projetos de pesquisa financiados pelo governo. Como beneficiário, era também alguém propenso a querer dar meu voto ao governo que me beneficiava. E como eu, também tantos outros beneficiários de programas governamentais, de crédito rural, de casa própria, de financiamento de veículos, negócios, empreendimentos, eletrodomésticos, não poderiam votar.
Depois, a posição de que a proteção ambiental atravanca a produção e a economia. Essa posição já havia sido fortemente defendida quando da criação das unidades de conservação federais na região nos idos de 2005-2006, como o Parque Nacional dos Campos Gerais. Mas foi nos ataques à Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, no ano passado, que a defesa dessa posição ganhou mais veemência. Entendo que ao propor a conscientização, a associação está se propondo a refletir sobre o papel das unidades de conservação, uma preocupação internacional prioritária. Elas têm a função de preservar condições ecológicas e ambientais imprescindíveis para proteger a vida no planeta, não só a biodiversidade que nos cerca, mas a própria espécie humana, garantindo inclusive o equilíbrio ecológico necessário para a manutenção da produtividade agrícola que nos abastece de alimentos e outros recursos vitais.
A terceira posição que espero que a associação esteja revendo em sua proposição de consciência é a do anúncio da defesa da intervenção militar como solução para os problemas atuais do Brasil. Quem faz tal defesa ou ignora História ou ignora o que sejam valores civilizatórios. Quem acredita que intervenção militar seja diferente de ditadura militar é de uma irremediável credulidade. Deveria conhecer melhor a história da ditadura militar no Brasil, que começou como um golpe para salvar o país. Deveria ler o livro “Brasil: nunca mais”, com prefácio do conceituado e saudoso Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, uma expressão do Catolicismo no Brasil, para conhecer a quais barbáries o estado de exceção pode conduzir. Barbáries que impõem sequelas ao país até hoje, ainda não nos recuperamos da violenta repressão a uma geração inteira de pensadores, de artistas, de nacionalistas, de idealistas, de homens públicos com verdadeiro espírito democrático.
Confiante que sou no poder da solidariedade e inclusão social, do senso de empatia e respeito para com a natureza e dos princípios republicanos para a transformação da sociedade de desacertos que vivemos hoje, saúdo a convocação da associação ao voto consciente. Mas fico com a forte impressão que, se pensamos em uma sociedade melhor, é ela, a associação, aquela que com mais urgência precisa fazer um severo exame de consciência.

domingo, 8 de julho de 2018

Diálogos celestiais também falam de futebol



─ Pedro, que comoção é aquela que estou sentindo naquele planeta miraculoso que criamos para experiências... como é mesmo o nome?
─ Terra, Mestre.
─ Isso, isso, a Terra. Onde colocamos benesses sem fim e aquelas almas recalcitrantes recolhidas por todo o universo que ainda tinham muito que aprender. É de lá que vem essa energia que estou sentindo que destoa de todo o cosmos?
─ É de lá mesmo Mestre.
─ O que se passa por lá? Alguma catástrofe natural? Alguma convulsão daquelas almas, que pelo que já vimos vivem a meter-se em guerras e conflitos?
─ É a copa do mundo de futebol, Mestre. Seleções dos países enfrentam-se, a vitoriosa é a campeã mundial de futebol. Acontece a cada quatro anos.
─ Mas, futebol?! Não é aquele esporte jogado até por moleques descalços e famintos de periferias miseráveis, em campos de terra ou areia nas várzeas ou nas praias? A bola às vezes improvisada com trapos e trastes velhos?
─ Isso mesmo. Justamente por isso tornou-se um esporte mundial, praticado por todos. A copa do mundo é o único evento esportivo que para todo o planeta. Todos a acompanham, até mesmo os países cujas seleções não chegam a classificar-se para o certame, que é muito disputado. Mas hoje em dia mudou muito. Continuam acontecendo peladas nas praias e várzeas como antes, é lá que aparecem os talentosos. Mas os craques são negociados a peso de ouro. Fortunas incalculáveis giram em torno dos clubes, das seleções, dos campeonatos e dos direitos de imagem.
─ Então é isso! E essa vibração que senti é em consequência de algum confronto especial?
─ Sim, foi uma partida em que jogou o Brasil, lembra-se? Aquele país que o Mestre propositalmente abençoou dentro daquele planeta já abençoado, mas que não vinha dando certo por causa dos desacertos de seu povo e dos dirigentes por ele escolhidos? Pois o Brasil já foi uma potência no futebol. Dizem especialistas que o esporte foi o responsável por erradicar um certo complexo de vira-lata que acometia aquele povo peculiar. O adversário do Brasil desta vez foi a Bélgica, dos chamados diabos vermelhos, um país da Europa. E eles venceram o Brasil. Foi um jogo disputado, mas os diabos vermelhos souberam se impor. Marcaram o primeiro gol meio casualmente, e então o time do Brasil abalou-se, desestruturou-se. Quase levou outros gols logo em seguida.
─ Óxi! Até no futebol essa concorrência... Nós tramamos para emancipar aquele país e seu povo, e vêm os diabos vermelhos e os derrotam?
─ Pois é! O Brasil vem sofrendo derrotas amargas. Há quatro anos a copa foi lá no país, e sofreram uma humilhante derrota dentro de casa, para adversários que eram tidos até então como fregueses históricos...
─ Estou me lembrando disso. Não foi quando nosso Departamento de Compensação de Iniquidades teve de interferir, por conta de uma grosseria sem precedentes para com a presidenta, a primeira mulher eleita para governar o país?
─ Isso mesmo Mestre. Sua memória está melhorando com aquelas rezas de Santa Luzia e as infusões de alho com losna.
─ Mas diga-me, como o Brasil que já foi uma potência no futebol anda sofrendo essas derrotas? Desta vez nosso Departamento de Compensação de Iniquidades não interferiu. Ou interferiu?
─ Não foi preciso, Mestre. O time pareceu encarnar a frouxidão do povo do país diante de adversidades recentes que têm acontecido por lá. Aquela grosseria com a presidenta eleita na copa anterior foi só um detalhe. Muita coisa tem acontecido desde então. Sabe aquelas benesses todas com as quais abençoamos aquele país continente? Os solos férteis, a água abundante, os rios e a energia hidrelétrica, os minérios, o petróleo e tantas outras coisas? Pois os brasileiros não estão zelando por elas. Estão deixando oportunistas inescrupulosos que usurparam o poder entregarem as riquezas do país a poderosos e corruptores interesses internacionais.
─ Uma pena, Pedro. Mas já prevíamos isso não é? Não foi por esse motivo que colocamos juntos no mesmo país benesses naturais e um povo ainda com muito a aprender?
─ Sim, foi isso mesmo. Foi proposital. Uma experiência.
─ Torço para que essa experiência dê certo! E aquele povo aprenda que é no caráter que praticamos no dia a dia que se forja o caráter para as grandes batalhas.

sábado, 23 de junho de 2018

Veneno remédio: o futebol e o Brasil


 Publicado no Diário dos Campos em 23/06/2018 e no Jornal da Manhã em 25/06/18.

A suada vitória nos acréscimos do Brasil sobre a Costa Rica nesta copa nos faz lembrar o excelente livro “Veneno remédio: o futebol e o Brasil” do interdisciplinar José Miguel Wisnik (professor de literatura, músico, ensaísta). No livro, o autor discute a importância do futebol para a construção da identidade e da autoestima do brasileiro, ajudando-nos a superar o complexo de vira-lata aprofundado com o “maracanazo” de 1950, quando o time do Uruguai calou um Maracanã lotado com perplexos cento e setenta mil torcedores, vencendo com uma heróica virada sobre a seleção canarinha.
O que pouco se sabe no Brasil, o que é explicado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano em seu livro “Espelhos: uma história quase universal”, é que o time do Uruguai tinha motivos de sobra para superar-se e vencer o favorito Brasil. Antes da copa os jogadores uruguaios tinham travado uma batalha moral e judicial em seu país, em favor da profissionalização e de contratos mais justos para os atletas. Tiveram de fazer greve e enfrentar a ganância de dirigentes e empresários, e nessa luta urdiram a têmpera e a solidariedade para vencer o Brasil naquela memorável final.
Contra a Costa Rica reapareceram alguns ecos daquela final, ainda que bastante mudados. Enquanto o time do Brasil procurou, principalmente com sua estrela maior, levar vantagem com simulações de faltas, o resultado não apareceu. Quando, muito em função da pressão da proximidade do fim da partida, as simulações deram lugar à garra e à objetividade, os redentores gols enfim aconteceram. Simulações buscando vantagens ilegítimas tornam o conjunto frouxo e ineficaz. A garra e a entrega trazem resultados.
Podemos fazer um paralelo entre essa angustiante partida de futebol e a situação do país. Assim como o time brasileiro, cheio de craques e com domínio do jogo mas com muitas oportunidades perdidas, o Brasil também tem muito potencial, mas tem perdido as oportunidades para consolidar-se como uma grande nação. Nossos potenciais são a nossa dimensão continental, as imensas riquezas naturais, a mestiçagem de povos e culturas com relativamente discretos conflitos, um único idioma, uma religião predominante, uma índole inegavelmente pacífica e amistosa.
Nossos erros, que acabam por aniquilar os muitos potenciais que temos, são também numerosos. O maior talvez seja a cegueira de não saber jogar como equipe. O exagerado individualismo de muitos, que na busca de satisfazer um egoísmo insaciável comprometem o desempenho do todo. Ao invés de levarem adiante uma jogada de equipe que beneficiaria o coletivo, procuram a glória e o proveito pessoal, e para isso não hesitam em simulações, fraudes, farsas, e o pior, perdem a cabeça e começam a cometer violências e falcatruas escandalosas.
Pena que, no nosso caso, os juízes pareçam ser irremediavelmente parciais e coniventes, e não contem com o auxílio de um arbítrio supostamente menos tendencioso e suspeito, como o vídeo assistente dos juízes desta copa.

domingo, 3 de junho de 2018

Lições da crise

Publicado no Diário dos Campos em 09/06/2018 e no Jornal da Manhã em 14/06/2018.
Quais aprendizados devemos colher da crise de caminhoneiros que parou o Brasil e transtornou a vida de todos?
É bom que tiremos lições dessa crise, sob pena de que ela não seja só uma crise, mas signifique um colapso. Lembrando, crise é quando o velho já está morto, e o novo ainda não nasceu. Colapso é quando o velho já está morto, e o novo já não tem como nascer. Que saibamos reconhecer os erros e dar vida ao novo, antes que seja tarde.
Quais erros temos cometido? São vários. Primeiro o erro de depender exclusivamente do transporte rodoviário, uma escolha de meados do século passado, que visou implantar a indústria automotiva neste nosso país continente. Escolha que priorizou o interesse das multinacionais automotivas, ignorando as peculiaridades do Brasil.
Depois o erro de depender de um sistema de produção de alimentos e produtos básicos que demanda transporte por longas distâncias. A produção e comercialização locais, diretas entre produtor e consumidor, praticamente inexistem. Se o transporte rodoviário para, o país para. Que tremenda vulnerabilidade logística!
Depois o erro de submeter o preço e a comercialização de bens estratégicos, como o petróleo e seus derivados, ao interesse de corporações transnacionais e seus acionistas, e não ao interesse da população e da soberania do país. É o grosseiro erro de acreditar que o mercado é melhor do que o Estado na gestão dos recursos estratégicos do país. Quem defende este erro ou é um ambicioso beneficiário direto de seus equívocos, ou alguém que ainda não refletiu sobre o conceito de “espírito animal” de John Maynard Keynes, um consagrado economista do século XX respeitado nos meios acadêmicos mas propositalmente esquecido pelos atuais adoradores do deus mercado. O “espírito animal” de Keynes manifesta-se sobretudo nos empresários, que encontram no adágio da livre concorrência o subterfúgio para a prática do salve-se quem puder, onde o mais velhaco é o mais favorecido. Um Estado verdadeiramente democrático forte é essencial para balancear o espírito animal e evitar as enormes desigualdades sociais que temos visto.
Há ainda o erro de acreditar em políticas de coalizão, em que interesses e princípios muito díspares conluiam-se oportunisticamente para exercer o poder, afastando-se do interesse da população e da ideia de construção de uma nação republicana e soberana. Mais hora menos hora as deserções e traições acontecem, as crises políticas sobrevêm.
E há ainda erros crônicos, decorrentes dos erros anteriores. Um sistema educacional fracassado, que não consegue formar cidadãos críticos e lúcidos, capazes de refletir e de intervir construtivamente nos destinos do país. Uma mídia viciada, que atende aos interesses de quem visa perpetuar privilégios de uma classe dominante atrasada. Um povo ignaro e manipulável, que facilmente é condicionado a abraçar causas retrógradas, como apoiar candidatos autoritários e pedir pela intervenção militar. Quem clama pela intervenção militar hoje ou é alguém mal intencionado, que enxerga nesse retrocesso a oportunidade para benefícios próprios, ou é alguém que desconhece o significado de uma intervenção militar, não viveu a ditadura nem conhece história.
A crise deflagrada pela paralisação dos caminhoneiros deveria fazer-nos refletir, e agir, sobre estes tantos erros que temos cometido, e com certeza muitos outros a eles associados. Se soubermos deixar de lado o nosso “espírito animal”, nossas ambições e paixões pessoais, e colocarmos o bem comum acima de nossas inseguranças e ganâncias, poderemos aproveitar a crise para corrigir os erros.
Que saibamos aproveitar a crise, antes que ela se torne um colapso de consequências imprevisíveis. Que esta crise marque o crepúsculo de uma época de sucessivos equívocos. Que o Brasil acorde de seu longo sono.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A crise por trás da crise dos caminhoneiros

Publicado no Diário dos Campos em 06/06/2018 e no Jornal da Manhã em 04/06/2018.

Por trás da crise da greve dos caminhoneiros, Felipe Coutinho, o presidente da AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobras – nos revela quais as verdadeiras causas dos seguidos aumentos dos preços dos combustíveis, que fizeram as estradas ficarem bloqueadas e o Brasil parar (ver em https://felipecoutinho21.wordpress.com/2018/05/27/entrevista-ao-brasil-247-sobre-a-politica-de-precos-da-petrobras/). A entrevista mostra que o Brasil tem exportado o petróleo bruto, que é refinado no exterior, principalmente nos EUA, e volta ao país com o preço mais alto, o valor agregado da industrialização lá fora. Enquanto isso, as refinarias brasileiras operam a 70% de sua capacidade. Ou seja, o petróleo que mandamos refinar lá fora e importamos mais caro poderia estar sendo refinado aqui.
 Como importamos os refinados pelo preço do mercado global, e este oscila ao sabor dos interesses das mesmas corporações transnacionais que importam nosso petróleo bruto e nos exportam de volta mais caro, a Petrobras vê-se na contingência de reajustar os preços de acordo com as diárias variações do mercado. Esse foi o principal motivo da paralisação dos caminhoneiros. Os custos do combustível sobem quase diariamente, o que não acontece com o valor do frete, que é sua receita.
E por quais motivos o governo estaria permitindo esta perversa negociação, que exporta o óleo cru como matéria prima relativamente barata e a importa na forma de refinados com valor agregado, enquanto poderia estar refinando aqui para a produção de combustíveis no país com preços livres das oscilações do mercado global?
Felipe Coutinho nos explica que a intenção do governo atual é, num futuro próximo, privatizar o refino e a comercialização de combustíveis no país. As potenciais empresas interessadas no negócio são justamente as transnacionais do petróleo. A elas não interessa um negócio onde os preços não acompanhem os preços praticados no mercado global. Então desde já o Brasil estaria se ajustando ao esquema pretendido.
Este esquema é o mesmo que tem vigorado desde o Brasil colônia. O país estaria destinado a ser um exportador de matérias primas relativamente baratas e um importador de produtos industrializados com valor agregado. A riqueza fica no país que agrega valor, e não no exportador de matérias primas. Isso aconteceu/ce com as madeiras nobres, a cana de açúcar, os minérios de manganês, alumínio, ferro e outros, a carne, a soja, e agora o nosso mais recente recurso natural exportável, o petróleo dos campos do pré-sal, descobertos em 2007. E fiquemos atentos, os próximos a serem visados são nossos aquíferos.
A lógica por trás de esquemas tão esdrúxulos é a lógica de priorização do interesse do mercado, em detrimento do interesse da população e da soberania nacional. Os recursos naturais de uma nação deveriam gerar riqueza dentro dessa nação, criar empregos, distribuir renda, contribuir para a prosperidade do Brasil, para a inclusão social e a diminuição da pobreza e das imensas diferenças sociais de nosso país. A riqueza oriunda de tais recursos deveria ser investida em saúde, educação, melhoria da infraestrutura, e em outras carências crônicas do Brasil.
Nunca a riqueza nacional, e no caso do petróleo estamos falando de uma riqueza exportável que descobrimos há uma década, deveria estar a serviço da sanha de inescrupulosas corporações transnacionais, regidas pela lógica do mercado e do lucro. O lema da Petrobras, criada em 1953, é “O petróleo é nosso”. Houve forte pressão popular para o caráter estatal da empresa, celebridades da época, como Monteiro Lobato e outros, engajaram-se na campanha de mostrar à população a importância do Estado manter para si o controle sobre riqueza tão essencial, pois os benefícios desta riqueza deveriam reverter em prol da população e da soberania do país.
Parece que essa rica história foi esquecida. É hora de relembrar população e governo que se o Brasil tem pretensão de acordar do berço esplêndido, e de ser o país do presente e não o eterno país do futuro, é preciso que deixemos de ser colônia exportadora de recursos naturais para satisfazer a sanha das corporações transnacionais e do mercado.

sábado, 26 de maio de 2018

Herança maldita



Nestes dias de paralisação dos caminhoneiros, tenho me surpreendido com o tanto que tenho visto na web, nos jornais escritos, em conversas, a atribuição da culpa ao que está acontecendo ao governo Dilma, que teria quebrado a Petrobras, que agora se vê obrigada a reajustar o preço dos derivados do petróleo diariamente. Uma herança maldita dos governos anteriores. Junto com a profusão de afirmações como esta, vejo cada vez mais adesivos do Bolsonaro presidente, e de pedidos de intervenção militar.
Vamos refletir sobre a Petrobras. Graças a uma política de autonomia, grandes investimentos e a tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil para prospecção e extração de petróleo em águas profundas, a Petrobrás “descobriu” os enormes campos petrolíferos do pré-sal, em 2007. A existência dessas grandes acumulações de petróleo já era prevista pela teoria da Tectônica de Placas, anunciada na Europa por Alfred Wegener em 1912, mas só reconhecida pela comunidade científica na década de 1960. Foi por esse motivo que na década de 1970 a Petrobras desativou a sua Divisão de Exploração Sul, sediada em Ponta Grossa, e concentrou esforços de prospecção na plataforma continental, onde se situam as bacias de Campos e de Santos, de onde provém quase todo o petróleo produzido atualmente no Brasil. Em 2006 o Brasil tornou-se autosuficente, graças ao petróleo produzido na Bacia de Campos. Em 2017, graças à produção dos campos do pré-sal na Bacia de Santos, o Brasil exportou uma média de um milhão de barris/dia, aproximando-se dos maiores exportadores mundiais. E a produção do pré-sal está só no início, deverá crescer significativamente. Ou seja, a Petrobras não está falida, pelo contrário, apesar da sabotagem que vem sofrendo nos últimos anos, ainda é uma empresa fortíssima, detentora de tecnologia especializada, descobridora dos maiores campos petrolíferos do mundo nas últimas décadas.
Justamente por tornar-se grande produtora, e por ter sido um monopólio estatal, a Petrobras foi alvo de tantas campanhas, tanto ataques visando minar seu equilíbrio financeiro quanto sua credibilidade. Não é por acaso que a Venezuela está na enorme crise que vemos hoje, e o Brasil vive sua crise relacionada a preços de combustíveis. A Venezuela também, como o Brasil, tem tentado manter sua principal riqueza, o petróleo, um bem controlado pelo estado, protegendo-o da sanha do oligopólio que controla o petróleo no planeta. A indústria do petróleo é a segunda indústria que mais mobiliza recursos no mundo, só perdendo para a indústria da guerra, que é movida pela indústria do petróleo. As “sete irmãs”, corporações do oligopólio do petróleo, não poderiam tolerar que estatais de países sulamericanos ameaçassem seu controle sobre a principal fonte de energia do planeta. Daí as crises que vemos hoje no Brasil e na Venezuela.
As corporações transnacionais, aliadas com o interesse da hegemonia de poder mundial dos países onde mantêm suas sedes (EUA e Europa), sabotam os governos e as empresas, como a Petrobras e a PDVSA da Venezuela, que ousem desafiar seu oligopólio. É isto que está se passando no Brasil, onde os governos que fortaleceram a Petrobras e o monopólio estatal, através de políticas soberanas e pesados investimentos no desenvolvimento tecnológico da exploração em águas profundas, sofreram um golpe. E o mesmo está acontecendo, talvez de forma ainda mais aguda, na vizinha Venezuela.
Os preços do petróleo no mercado internacional são controlados pelo oligopólio. Eles podem mudar para favorecer o interesse das sete irmãs, ou para sabotar quem quer que lhes ameace a exclusividade, como as estatais de países periféricos. O oligopólio não mede esforços, nem consequências, para preservar seu domínio. A greve de caminhoneiros que vivemos hoje é só uma das muitas consequências. Outra é a mudança de governo. No Brasil assumiu um governo servil, submisso aos interesses internacionais.
E outra consequência, talvez ainda mais arraigada: a lavagem cerebral realizada na população, para que ela defenda os interesses de oligopólios estrangeiros ao invés de defenderem interesses de soberania nacional. Essa é a verdadeira herança maldita.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Eleição na Universidade

Publicado no Jornal da Manhã em 15/05/18.

Momento de eleição, momento de repensar a missão da Universidade pública. Dizer que seja ensino, pesquisa e extensão é estacionar na mesmice burocrática de quem não tem verdadeira compreensão do alcance do papel das instituições de ensino superior públicas. Na Universidade são formados professores, técnicos, os profissionais que dão continuidade à formação e ao aperfeiçoamento dos futuros profissionais. Os cidadãos, os homens (e, felizmente cada vez mais, as mulheres) públicos, os futuros administradores e tomadores de decisões que afetam toda a sociedade.
Historicamente, a Universidade tem sido a instituição onde se produz e onde se transmite todo o conhecimento essencial para o progresso da sociedade, pelo ponto de vista de quem a financia. Progresso não só tecnológico, mas sobretudo social, filosófico, moral, cultural... A Universidade pública tem, então, em tese, de priorizar o interesse de quem a financia: o público, o coletivo, visto que todos contribuem para seu custeio. 
As pressões para a privatização da Universidade são fortes: toda a estrutura construída com o esforço público passaria a interesses privados. Além do imenso negócio da formação superior cair nas mãos de quem prioriza o lucro, esta formação poderia então ser direcionada para os interesses dos negociantes.
Nos dias 15 e 17 de maio realiza-se a eleição para reitor e vice-reitor da UEPG. A UEPG é importante? Lamentável que ainda muitos neguem ou não enxerguem essa importância. Por sua antiguidade, tradição, alcance regional, multiplicidade de cursos e atividades, infraestrutura, a UEPG tem um potencial inquestionável. Acentuado pela singularidade da região e da cidade de Ponta Grossa. E qual a importância de sua direção, personificada antes de tudo pelo reitor e vice-reitor? Capital. São eles que definem a forma de preenchimento dos muitos cargos de confiança que vão administrar e determinar os rumos da instituição.
E atualmente quais deveriam ser estes rumos? Uma espiada na situação mundial e nacional pode nos dar algumas pistas. Vivemos uma época de retrocesso. Direitos humanos, conquistas trabalhistas, probidade, liberdade de expressão, inclusão social, respeito às minorias, igualdade de direitos, paz, soberania de povos e nações têm sido ameaçados e violentados em todo o mundo. E não é diferente no Brasil, onde os três poderes encontram-se em grave crise. Profundas distorções permitem que a insegurança e o medo intencionalmente disseminados sejam transformados em ressentimentos e ódios que só visam desarticular as forças sociais e facilitar a perpetuação de estruturas de dominação herdadas de séculos de escravatura. Insidiosa manipulação substitui o sentir e o refletir por reflexos condicionados, controla a opinião e constrói consensos avessos ao interesse coletivo.
A Universidade antes de mais nada tem de manter-se pública, e gratuita. Sua direção deve ter compromisso com o interesse da sociedade como um todo, não de corporações, ideologias e muito menos associações e sociedades secretas. E a sociedade é diversidade, é conflito. A Universidade tem de buscar condições de dialogar, de buscar e reconhecer consensos que signifiquem prosperidade da maioria. Para tanto é preciso que seja capaz de discernir, de analisar, de criticar, de autocriticar-se.
Que a comunidade universitária saiba escolher seus futuros dirigentes. Que estes tenham grandeza moral à altura do papel da instituição, que deve zelar pela capacidade de pensar e de fazer as escolhas mais adequadas para o aperfeiçoamento de nossa conflituosa sociedade.